A missão de um(a) nutricionista é bem clara: ” promover, manter e recuperar a saúde através da alimentação.” Essa frase na minha opinião aborda a maioria dos ciclos da vida, como o nascimento, a infância, a vida adulta e o envelhecimento. No entanto, como alimentar um corpo que já está de partida desse campo físico?
Esta pergunta permeia meus pensamentos em vários momentos da minha atividade profissional.
Quando o alimento deixa de ser clínica e passa a ser conforto
Quando devemos perceber o momento de abrandarmos as condutas clínicas e apenas provermos o essencial para o conforto do coração e da alma, deixando o indivíduo partir, sem esbarramos na negligência, mas com amparo e atendimento total das necessidades e vontades?
O papel do Nutricionista no cuidado paliativo é, acima de tudo, dar conforto e qualidade de vida nesses momentos finais de tanta delicadeza e fragilidade, e dessa forma avaliar os melhores caminhos para que não sejam realizadas intervenções agressivas ao prolongamento da vida. Apenas nutrir e hidratar o corpo, respeitando as escolhas e preferências do paciente e de seus familiares.
O valor das pequenas vontades
Peço licença a vocês para contar uma breve história, na qual tive o prazer de participar. Vou citá-la apenas como referência do meu entendimento como Nutricionista sobre o atendimento no cuidado paliativo.
Ceder a alguns desejos dos pacientes terminais faz parte da montanha russa de emoções de que é trabalhar em um Abrigo de idosas carentes em fragilidade social.
Vocês podem pensar que o local onde trabalho é permeado pela tristeza, pelo luto e decrépito pela velhice, mas ao contrário de tudo isso, lá é o lugar de mais vida que as pessoas jamais supõem encontrar. É fato que o desfecho da vida está mais presente no abrigo do que na maioria dos locais e dessa forma me acostumei a lidar com a morte e entender seus ritos de passagem.
Já presenciei muitas partidas e levo no meu coração a gratidão de poder ter saciado as vontades e os desejos de comer um “docinho” ou “tomar aquele refrigerante geladinho”, e tantos pedidos inusitados que já perdi a conta.
Porém existiu um primeiro pedido que deu origem a toda a essa lista.
Dona G e o curau de despedida
Conheci uma senhora muito ativa e religiosa no período da pandemia de Covid19, a Dona G, ela teve Covid, mas não foi isso que a derrubou. Ela teve o temido AVC e ficou acamada. Dona G era uma idosa dos seus 90 anos, franzina, mas autoritária, cheia de restrições alimentares, que ela mesma se impunha. Aquela paciente complexa, que não aceitava nada e nem muito menos ouvia alguém.
Eu tentava de tudo, dieta geral, dieta pastosa, dieta líquida, dava meu máximo.
Todos os dias perguntava o que ela deseja comer e ela nunca expressava nada.
Nos seus últimos dias, ela ficou mais serena e deixou-se mimar, e para minha surpresa pediu que eu fizesse um curau de milho com canela, porque era junho, mês de festa junina, e ela estava com vontade de comer.
Eu dei pulos de alegria e fui eu mesma para cozinha fazer o abençoado curau.
Ela comeu, e na primeira colherada deu aquele suspiro misturado com sorriso e disse que estava igualzinho o que a mãe dela fazia.
Eu não contive minhas lágrimas, e a cada pouquinho que ela se alimentava, eu via no seu rosto a satisfação e meu coração batia mais feliz.
Nesse dia fui embora para casa com a certeza do meu dever cumprido.
Quando cheguei no dia seguinte para trabalhar Dona G tinha partido, mas eu estava leve sabendo que pude ainda, em vida, proporcionar a ela uma lembrança gustativa, de um sabor que lhe era tão aconchegante, “o curau” da sua mãe.
Resumindo, o cuidado paliativo em nutrição é proporcionar satisfação, aconchego, carinho e cuidados, mesmo nas horas mais difíceis de cuidar.
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Assunto muito necessário principalmente para nós que estamos de pessoas idosas . A maioria frágeis e debilitadas. Quando a cura já não é mais possível viver com afeto,amor e acolhimento é o mais lindo caminho
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Cuidar é amar o que se faz!Quantos são capazes? A partida já é tão difícil! Nessa hora o coração só necessitava de um simples curau,com sabor do amor de mãe. Parabéns para vocês que entendeu e a levou de volta para casa!











Assunto muito necessário principalmente para nós que estamos de pessoas idosas . A maioria frágeis e debilitadas. Quando a cura já não é mais possível viver com afeto,amor e acolhimento é o mais lindo caminho
Cuidar é amar o que se faz!Quantos são capazes? A partida já é tão difícil! Nessa hora o coração só necessitava de um simples curau,com sabor do amor de mãe. Parabéns para vocês que entendeu e a levou de volta para casa!