- O custo de fingir: quando negar emoções compromete o cuidado
- Consciência emocional: transformar vulnerabilidade em competência profissional
- Segurança psicológica: quando a humanidade deixa de ser um risco e se torna um recurso
- 🏋️ Treinamento para você
- 🏋️♀️🏋️♂️ Treinamento em equipe
- Vamos nos encontrar pessoalmente
Por Letizia Espanoli — Modelo Sente-Mente® Itália | Adaptação para o contexto brasileiro de ILPI – autorizado para Revista Cuidar® – Traduzido por: Aline Salla
Quantas vezes você já ouviu esta frase? “Deixe seus problemas na porta quando vier trabalhar.” Ou: “Aqui você precisa ser profissional; o que acontece na sua vida privada não deve influenciar o cuidado.” É um conselho quase sempre dado com boas intenções. Ainda assim, é um dos maiores equívocos da cultura organizacional.
Por quê?
- Não somos malas que podem ser esvaziadas antes de bater o ponto.
- Não somos máquinas que estacionam as emoções na entrada da ILPI para buscá-las no fim do turno.
Entramos no trabalho com a nossa história, com a preocupação com um filho, com uma discussão que tivemos pela manhã, com um diagnóstico recebido no dia anterior, com um luto, com uma dívida, com uma alegria inesperada, com um medo que ainda não contamos a ninguém. Entramos por inteiro.
O custo de fingir: quando negar emoções compromete o cuidado
A verdadeira questão, então, não é se podemos deixar nossos problemas na porta. A verdadeira questão é: o que acontece quando fingimos que conseguimos?
A neurociência nos ensina que emoções e cognição não seguem caminhos separados. Antonio Damasio mostrou como o pensamento racional é continuamente influenciado pelos estados corporais e emocionais: não existe mente que decide ignorando o que o corpo sente. Da mesma forma, pesquisas sobre trabalho emocional e burnout mostram que reprimir sistematicamente as próprias emoções, em vez de reconhecê-las e regulá-las, aumenta o risco de exaustão psicológica, distanciamento emocional e perda de autenticidade nas relações de cuidado.
No Modelo Sente-Mente®, costumamos dizer que não podemos acompanhar o outro até onde não estamos dispostos a ir nós mesmos. Se peço à pessoa com demência que seja autêntica enquanto eu uso uma máscara, se exijo que ela expresse suas emoções enquanto eu escondo as minhas, crio uma distância invisível que o corpo do outro percebe imediatamente.
Consciência emocional: transformar vulnerabilidade em competência profissional
Mas atenção: reconhecer seus problemas não significa descontá-los nos residentes ou colegas. Não significa transformar o turno em um espaço de desabafo descontrolado. Significa algo muito mais maduro: reconhecer que essas emoções existem, nomeá-las e assumir responsabilidade por elas.
Uma tristeza reconhecida é muito menos perigosa do que uma tristeza negada. Uma raiva observada tem menos probabilidade de se transformar em grosseria durante um cuidado ou em impaciência diante de uma recusa.
A psicologia da autocompaixão, com os estudos de Kristin Neff, mostra que quem reconhece com gentileza a própria vulnerabilidade desenvolve maior resiliência, menos autocrítica e maior capacidade de apoiar o sofrimento do outro sem se deixar dominar por ele. Em outras palavras, cuidar do outro começa pela capacidade de não mentir para si mesmo.
Imagine um cuidador que chega à unidade após uma noite em claro com o pai internado. Se ele se convencer de que precisa “deixar tudo de fora”, provavelmente gastará muita energia reprimindo o que sente.
Se, por outro lado, conseguir dizer a si mesmo: “Hoje estou preocupado. Percebo isso. Vou prestar ainda mais atenção ao meu tom de voz, ao meu ritmo, às minhas reações”, essa consciência se torna uma forma de proteção para si e para os outros.
Segurança psicológica: quando a humanidade deixa de ser um risco e se torna um recurso
As organizações mais saudáveis não são aquelas onde ninguém tem problemas. São aquelas onde ninguém é obrigado a fingir que não os tem. A segurança psicológica, estudada por Amy Edmondson, nasce justamente da possibilidade de levar a própria humanidade para o trabalho sem medo de ser julgado como fraco ou inadequado. É nesses contextos que as pessoas pedem ajuda antes de errar, compartilham dúvidas, apoiam os colegas e constroem equipes mais confiáveis.
Talvez devêssemos parar de dizer: “Deixe seus problemas na porta.”
E começar a dizer: “Entre com tudo o que você é, mas não deixe que isso dite suas ações.”
Porque ser profissional não significa ser insensível.
Significa transformar a própria humanidade em um recurso consciente.
🏋️ Treinamento para você
Antes de começar o turno, pare por um minuto e pergunte a si mesmo:
“O que estou carregando comigo hoje?”
Escolha uma palavra — cansaço, serenidade, medo, entusiasmo, preocupação — e anote-a.
Não tente eliminá-la. Apenas reconheça-a.
Depois, pergunte-se:
“De que atenção vou precisar hoje para que essa emoção não influencie a forma como cuido dos outros?”
🏋️♀️🏋️♂️ Treinamento em equipe
Reserve cinco minutos no início de uma reunião ou troca de turno para um breve check-in.
Cada pessoa completa a frase com uma palavra:
“Hoje chego aqui me sentindo…”
Sem explicações, sem conselhos, sem soluções. Apenas escuta.
Você vai perceber que, quando as pessoas podem se apresentar por inteiro, elas precisam menos se esconder atrás de papéis, automatismos ou rigidez.
Vamos nos encontrar pessoalmente
“Vamos nos encontrar pessoalmente” não é apenas um convite, é uma promessa de conexão autêntica, de troca intelectual e de crescimento mútuo.
Esta seção será a sua bússola para eventos exclusivos, conferências inspiradoras e encontros nos quais o conhecimento se entrelaça com a experiência humana, e onde suas curiosidades e aspirações encontrarão espaço e voz.
Dia 10/09/2026 as inscrições para o MPC Brasil serão ENCERRADAS.
Nota importante: Os conteúdos publicados na Revista Cuidar são protegidos por direitos autorais. A reprodução parcial ou total de qualquer texto, adaptação ou redistribuição, seja em meio digital ou impresso, somente é permitida mediante citação da fonte: Revista Cuidar – No coração das ILPI. Qualquer uso não autorizado é proibido. © Revista Cuidar.
PESSOAS
Eventos e Cultura
- O custo de fingir: quando negar emoções compromete o cuidado
- Consciência emocional: transformar vulnerabilidade em competência profissional
- Segurança psicológica: quando a humanidade deixa de ser um risco e se torna um recurso
- 🏋️ Treinamento para você
- 🏋️♀️🏋️♂️ Treinamento em equipe
- Vamos nos encontrar pessoalmente
Por Letizia Espanoli — Modelo Sente-Mente® Itália | Adaptação para o contexto brasileiro de ILPI – autorizado para Revista Cuidar® – Traduzido por: Aline Salla
Quantas vezes você já ouviu esta frase? “Deixe seus problemas na porta quando vier trabalhar.” Ou: “Aqui você precisa ser profissional; o que acontece na sua vida privada não deve influenciar o cuidado.” É um conselho quase sempre dado com boas intenções. Ainda assim, é um dos maiores equívocos da cultura organizacional.
Por quê?
- Não somos malas que podem ser esvaziadas antes de bater o ponto.
- Não somos máquinas que estacionam as emoções na entrada da ILPI para buscá-las no fim do turno.
Entramos no trabalho com a nossa história, com a preocupação com um filho, com uma discussão que tivemos pela manhã, com um diagnóstico recebido no dia anterior, com um luto, com uma dívida, com uma alegria inesperada, com um medo que ainda não contamos a ninguém. Entramos por inteiro.
O custo de fingir: quando negar emoções compromete o cuidado
A verdadeira questão, então, não é se podemos deixar nossos problemas na porta. A verdadeira questão é: o que acontece quando fingimos que conseguimos?
A neurociência nos ensina que emoções e cognição não seguem caminhos separados. Antonio Damasio mostrou como o pensamento racional é continuamente influenciado pelos estados corporais e emocionais: não existe mente que decide ignorando o que o corpo sente. Da mesma forma, pesquisas sobre trabalho emocional e burnout mostram que reprimir sistematicamente as próprias emoções, em vez de reconhecê-las e regulá-las, aumenta o risco de exaustão psicológica, distanciamento emocional e perda de autenticidade nas relações de cuidado.
No Modelo Sente-Mente®, costumamos dizer que não podemos acompanhar o outro até onde não estamos dispostos a ir nós mesmos. Se peço à pessoa com demência que seja autêntica enquanto eu uso uma máscara, se exijo que ela expresse suas emoções enquanto eu escondo as minhas, crio uma distância invisível que o corpo do outro percebe imediatamente.
Consciência emocional: transformar vulnerabilidade em competência profissional
Mas atenção: reconhecer seus problemas não significa descontá-los nos residentes ou colegas. Não significa transformar o turno em um espaço de desabafo descontrolado. Significa algo muito mais maduro: reconhecer que essas emoções existem, nomeá-las e assumir responsabilidade por elas.
Uma tristeza reconhecida é muito menos perigosa do que uma tristeza negada. Uma raiva observada tem menos probabilidade de se transformar em grosseria durante um cuidado ou em impaciência diante de uma recusa.
A psicologia da autocompaixão, com os estudos de Kristin Neff, mostra que quem reconhece com gentileza a própria vulnerabilidade desenvolve maior resiliência, menos autocrítica e maior capacidade de apoiar o sofrimento do outro sem se deixar dominar por ele. Em outras palavras, cuidar do outro começa pela capacidade de não mentir para si mesmo.
Imagine um cuidador que chega à unidade após uma noite em claro com o pai internado. Se ele se convencer de que precisa “deixar tudo de fora”, provavelmente gastará muita energia reprimindo o que sente.
Se, por outro lado, conseguir dizer a si mesmo: “Hoje estou preocupado. Percebo isso. Vou prestar ainda mais atenção ao meu tom de voz, ao meu ritmo, às minhas reações”, essa consciência se torna uma forma de proteção para si e para os outros.
Segurança psicológica: quando a humanidade deixa de ser um risco e se torna um recurso
As organizações mais saudáveis não são aquelas onde ninguém tem problemas. São aquelas onde ninguém é obrigado a fingir que não os tem. A segurança psicológica, estudada por Amy Edmondson, nasce justamente da possibilidade de levar a própria humanidade para o trabalho sem medo de ser julgado como fraco ou inadequado. É nesses contextos que as pessoas pedem ajuda antes de errar, compartilham dúvidas, apoiam os colegas e constroem equipes mais confiáveis.
Talvez devêssemos parar de dizer: “Deixe seus problemas na porta.”
E começar a dizer: “Entre com tudo o que você é, mas não deixe que isso dite suas ações.”
Porque ser profissional não significa ser insensível.
Significa transformar a própria humanidade em um recurso consciente.
🏋️ Treinamento para você
Antes de começar o turno, pare por um minuto e pergunte a si mesmo:
“O que estou carregando comigo hoje?”
Escolha uma palavra — cansaço, serenidade, medo, entusiasmo, preocupação — e anote-a.
Não tente eliminá-la. Apenas reconheça-a.
Depois, pergunte-se:
“De que atenção vou precisar hoje para que essa emoção não influencie a forma como cuido dos outros?”
🏋️♀️🏋️♂️ Treinamento em equipe
Reserve cinco minutos no início de uma reunião ou troca de turno para um breve check-in.
Cada pessoa completa a frase com uma palavra:
“Hoje chego aqui me sentindo…”
Sem explicações, sem conselhos, sem soluções. Apenas escuta.
Você vai perceber que, quando as pessoas podem se apresentar por inteiro, elas precisam menos se esconder atrás de papéis, automatismos ou rigidez.
Vamos nos encontrar pessoalmente
“Vamos nos encontrar pessoalmente” não é apenas um convite, é uma promessa de conexão autêntica, de troca intelectual e de crescimento mútuo.
Esta seção será a sua bússola para eventos exclusivos, conferências inspiradoras e encontros nos quais o conhecimento se entrelaça com a experiência humana, e onde suas curiosidades e aspirações encontrarão espaço e voz.
Dia 10/09/2026 as inscrições para o MPC Brasil serão ENCERRADAS.
Nota importante: Os conteúdos publicados na Revista Cuidar são protegidos por direitos autorais. A reprodução parcial ou total de qualquer texto, adaptação ou redistribuição, seja em meio digital ou impresso, somente é permitida mediante citação da fonte: Revista Cuidar – No coração das ILPI. Qualquer uso não autorizado é proibido. © Revista Cuidar.
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