Este texto foi desenvolvido, inspirado nos ensinamentos de Letizia Espanoli, Sente-Mente® Modelo, e da ©Revista Cura, Itália. Tradução autorizada para a ©Revista Cuidar por Aline Salla. (Todos os direitos reservados; favor citar a Revista Cuidar se usar o material.)
Durante décadas, as ILPI (Instituições de Longa Permanência para Idosos – popularmente conhecidas como “Casa de repouso/asilo), brasileiras nasceram e cresceram sob a lógica da caridade e do abrigo filantrópico, um gesto de generosidade civil que, na ausência histórica de políticas públicas, garantiu acolhimento a milhares de idosos que de outra forma não teriam para onde ir. Mas esse modelo se desenvolveu sem o suporte estrutural, o financiamento e a regulação que deveriam acompanhá-lo, e essa fragilidade segue sendo a realidade da maior parte das instituições até hoje. O problema não está em reconhecer que a ILPI também cuida de saúde, ela sempre cuidou. O problema é a ausência de uma integração entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), retaguarda que deveria sustentar essas casas, indepentende da natureza juridica e, na prática, ainda falta em grande parte do país. Sem essa integração, muitas instituições enfrentam a complexidade clínica de residentes cada vez mais frágeis sem os profissionais, os protocolos e o financiamento necessários para cuidar bem, o pior dos dois mundos possíveis..
Essa mudança exige que compreendamos a ILPI não como um exílio ou um local de espera, mas como um espaço a ser habitado com dignidade e que deve combater o mercantilismo que não é acompanhado pela qualidade do cuidado. Aqui, recorremos ao conceito fundamental de “Dar Casa ao Tempo Frágil”. Na teoria da arquitetura de Karl Ernst Lotz, a casa é descrita como a “terceira pele” do ser humano¹. Se a primeira pele nos protege biologicamente e a segunda (as roupas) nos apresenta socialmente, o ambiente da ILPI deve funcionar como uma camada que acolhe, amplia e revela a subjetividade da pessoa idosa, em vez de estreitá-la sob paredes impessoais. É o olhar de gestão da instituição que define se aquele espaço se torna um depósito de “pessoas vulneráveis que irão trazer lucros” ou um lar, onde pessoas que merecem ser bem cuidadas encontram profissionais que verdadeiramente sabem o que estão fazendo, muitas vezes apesar das dificuldades estruturais que o setor ainda enfrenta. Quando o cuidado é esvaziado de sentido, ele corrói tanto quem recebe quanto quem oferece, transformando a rotina em um fardo mecânico que ignora a vida que ainda pulsa por trás do diagnóstico.
“Quem Perturba Quem?”: O Comportamento como Linguagem
No cotidiano institucional, os chamados Distúrbios de Comportamento (BPSD) são frequentemente rotulados como sintomas de uma patologia “ingovernável”. Entretanto, sob a lente do cuidado centrado na pessoa, proposto por especialistas como Ennio Ripamonti e Letizia Espanoli, devemos inverter a provocação: “Quem perturba quem? E, sobretudo, por quê?”. Muitas vezes, a agitação do residente não é um surto aleatório, mas uma reação legítima a um ambiente que ignora seu ritmo interior em favor do tempo Kronos, o tempo rígido dos relógios e planilhas.
O comportamento deve ser lido como uma forma de linguagem não verbal. Quando um idoso apresenta o chamado wandering (perambulação), ele pode estar expressando uma necessidade de exploração ou uma busca por segurança que o ambiente estéril não provê. A contenção física ou farmacológica, nesse contexto, não é um recurso técnico legítimo, mas um “diagnóstico organizacional” de falha. Ao amarrar ou sedar excessivamente um residente, nós o abandonamos ao que Espanoli denomina “o monstro da imobilidade”, retirando-lhe a última forma de expressão. Para evitar esse desfecho, a equipe deve utilizar uma lista de verificação crítica:
- Ambiente Sensorial: O ruído excessivo ou a iluminação fria estão gerando desorientação?
- Tempo Humano: O idoso está sendo forçado a seguir um horário de banho que agride seu hábito de vida?
- Significado do Espaço: Existem elementos da “terceira pele” (fotos, objetos) que facilitem o reconhecimento do local como seguro?
- Escuta Atenta: O cuidador está executando uma tarefa ou estabelecendo uma relação durante o manejo?
- Necessidades Biográficas: A agitação é fruto de tédio ou de uma saudade que não encontra espaço para ser dita?
A pergunta correta para uma equipe de excelência nunca será “como conter?”, mas sim “o que esta pessoa está tentando nos comunicar através desta ação?”.
A Ética da Palavra: A Linguagem que Constrói o Cuidado
As palavras que circulam nos corredores de uma ILPI não apenas descrevem a realidade; elas a criam. Quando a linguagem da equipe é objetivante, o cuidado torna-se invisível e desumanizado. Ludwig Wittgenstein já advertia que “se falássemos uma linguagem diferente, perceberíamos um mundo de algum modo diferente”. Substituir termos técnicos que rotulam pelo vocabulário da identidade é o primeiro passo para uma revolução cultural.
Um erro comum e insidioso é a infantilização, manifestada em termos como “queridinho(a)” ou o uso genérico de “vovô” e “vovó”. Letizia Espanoli destaca que essa postura infantilizante “incrina a confiança” e mina a autonomia, tratando adultos com décadas de história como crianças sem vontade própria. É o que chamamos de “lentes escuras” do diagnóstico, que impedem a equipe de enxergar o sujeito. Veja a proposta de transição terminológica abaixo:
Transição terminológica: do objeto à pessoa
“O demente do quarto 12” → “A Sra. Emília, que foi professora” Resgata a história de vida sobre o CID.
“Manejar o corpo / Trocar a fralda” → “Cuidado de higiene e conforto” Transforma tarefa em ato de dignidade.
“Controle de agitação / Sedar” → “Acolhimento da angústia” Busca a causa emocional, não o silenciamento.
“queridinho / Vovozinho” → “Sr. João (ou nome de preferência)” Respeita a identidade adulta e a autoridade.
“Dar a dieta (processo mecânico)” → “Momento da refeição e prazer” Valoriza o paladar e a autonomia sensorial.
Ao mudar o vocabulário, abandonamos a “Lógica do Funcionar” (tarefa pura) para habitar o “Tempo do Kairos”, o tempo do sentido, do encontro e da presença.
O Contexto Brasileiro: Das Limitações à Transformação Possível
Falar de humanização nas ILPIs brasileiras exige enfrentar dados contundentes de subfinanciamento. Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)², cerca de 65% das instituições de longa permanência no Brasil são filantrópicas e operam sob forte restrição orçamentária. No âmbito do Sistema Único de Assistência Social, os repasses federais por idoso que mora nas ILPI têm sido historicamente baixos e, em muitos casos, não acompanham a inflação, representando apenas uma pequena fração do salário-mínimo. Esse cenário força gestores e equipes a atuarem no limite da capacidade operacional.
Contudo, a humanização não pode ser tratada como supérfluo para tempos de bonança. O cuidado esvaziado de sentido é o que gera o burnout dos profissionais. Quando a equipe trabalha apenas sob a pressão do relógio, a exaustão é inevitável. Mas quando se permite enxergar “pequenos milagres”, o trabalho é revitalizado.
Tomemos um exemplo recorrente na prática das ILPIs brasileiras, aqui composto para preservar identidades. Dona Alzira, 85 anos, vivia havia meses em silêncio quase absoluto, resistindo ao banho e às refeições com agitação constante. Numa manhã, uma cuidadora, ao ler sua ficha biográfica e descobrir que ela fora costureira por quarenta anos, trouxe um pedaço de tecido de algodão estampado, semelhante aos que Alzira usava em suas confecções, e o deixou sobre suas mãos durante o banho. Pela primeira vez em semanas, Dona Alzira sorriu e começou a cantarolar uma cantiga antiga, dobrando o tecido com movimentos precisos de quem ainda lembra do ofício nas mãos, mesmo quando a memória das palavras já se perdeu. Um gesto simples, de baixo custo, que rompeu por instantes o isolamento da demência, não porque “curou” nada, mas porque reconheceu, no corpo, uma identidade que a rotina clínica havia deixado de ver.
É possível termos um ambiente que, embora muitas vezes limitado externamente pelo clima hostil (falta de verba, escassez), proteja por dentro a vida, permitindo que ela floresça. Isso se faz com intervenções de baixo custo:
- Substituir a rigidez dos horários pelo despertar natural.
- Utilizar memórias afetivas (músicas, aromas de café ou bolo) para ancorar o residente no presente.
- Reconhecer que o cuidador também precisa de cuidado; a parceria entre gestão e equipe é a estrutura que impede o colapso da humanidade no serviço.
A Vida que Continua Sendo Vida
O envelhecimento fragilizado não é uma falha biológica a ser escondida, mas uma etapa da existência que exige um “olhar de possibilidade”. Precisamos rejeitar a narrativa da tragédia que reduz a pessoa com demência a um “corpo a ser consertado”. Como se atribui a Rabindranath Tagore, “a borboleta não conta os anos, mas os instantes; por isso seu breve tempo lhe basta”. Nas ILPIs, a qualidade do cuidado deve ser medida pela intensidade e pela dignidade de cada instante habitado.
A reinvenção das instituições brasileiras passa pela coragem de ser “ponte para o encontro”. Nossa missão, como especialistas e cuidadores, é garantir que cada residente, ao habitar seu tempo frágil, sinta que sua história continua sendo vista e que seu nome ainda é pronunciado com reverência. No fim, a forma como cuidamos da vulnerabilidade alheia é o teste definitivo da nossa própria humanidade. Convocamos todos os profissionais a desarmarem as “bombas” do cotidiano (a pressa, o silenciamento e a contenção) e a assumirem o compromisso ético de que, enquanto houver emoção, haverá vida plena de valor.
Esse é, também, o espírito que nos leva ao MPC Brasil 2026, o primeiro Encontro Nacional de Profissionais de Cuidar do país, inspirado nos 12 anos de história do MPC Itália. Nos dias 1 e 2 de outubro, em São José do Rio Preto (SP), gestores, enfermeiros, médicos, psicólogos e todos os que sustentam o cuidado nas ILPIs brasileiras vão se encontrar, na mesma sala, com a mesma voz, para transformar em prática tudo o que este texto defende em teoria. Porque, no fim, o que está em jogo não são corpos: são pessoas. Saiba mais e garanta sua vaga em revistacuidar.com.br/mpc.

Encontro Nacional dos Profissionais de Cuidar
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MPC – Encontro Inovativo entre Profissionais de ILPI
Dias 01 e 02 de outubro – Saiba mais clicando aqui.
A vida de cada pessoa idosa e de cada pessoa que cuida nas ILPI – importa.








