Autoria: Amanda Oliveira Brissi, Cecília Galetti Ruzzi, Claudimara Zanchetta, Cristina Cristóvão Ribeiro, Fernanda Cury Martins Teigão, Gilmar Mereb Chueire Calixto, Luísa Veríssimo Pereira Sampaio, Rubens Bendlin, Alana Tayla Franchetti Lemos Faé, Gabriely de Paula da Silva, Gentil Santos Ferreira Motinho e Ana Lúcia Fiebrantz Pinto.
Envelhecer no Século XXI: Desafios, Transformações e Novos Sentidos
O contexto da pessoa idosa no século XXI é marcado por uma longevidade sem precedentes, associada a profundas transformações tecnológicas, sociais, econômicas e familiares. Embora as pessoas vivam mais e tenham maior acesso aos avanços da medicina, também enfrentam novos desafios relacionados à inclusão, à adaptação e à participação social.
O aumento da expectativa de vida transformou a pirâmide etária mundial, trazendo impactos para os sistemas de saúde e previdência e, ao mesmo tempo, ressignificando a velhice como uma etapa ativa da vida, que contempla tanto a chamada “terceira idade” quanto a “quarta idade”. Nesse cenário, envelhecer é atravessar um processo multidimensional, marcado por transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais. Entretanto, compreender a velhice apenas a partir das perdas e limitações significa desconsiderar tudo aquilo que permanece, se transforma e ainda pode florescer.
Entre as principais mudanças contemporâneas está a transição acelerada para os serviços digitais, como bancos, aplicativos e plataformas governamentais, que exige constante adaptação. Enquanto parte das pessoas idosas utiliza ativamente essas tecnologias, muitas ainda enfrentam o analfabetismo digital, a exclusão e, consequentemente, a redução de sua autonomia.
Também ocorreram mudanças importantes nas estruturas familiares. A diminuição do tamanho das famílias e a ampliação da participação de seus membros no mercado de trabalho reduziram as redes tradicionais de apoio informal. Esse processo contribui para o aumento da solidão e amplia a demanda por cuidados formais, serviços especializados e Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas.
No mercado de trabalho, a aposentadoria deixou de representar, necessariamente, o encerramento da vida produtiva. Muitas pessoas idosas continuam trabalhando por necessidade financeira, desejo de participação social ou busca pela manutenção de uma rotina ativa. Paralelamente, o crescimento da chamada “economia prateada” impulsiona o desenvolvimento de produtos e serviços destinados a esse público. Apesar desses avanços, o etarismo ainda persiste, manifestando-se por meio da discriminação no trabalho, da infantilização nos diferentes espaços sociais e da invisibilidade nas políticas públicas.
Diante dessas transformações, é fundamental reconhecer que os desejos, os afetos, as memórias e os talentos permanecem presentes ao longo da vida, assim como a capacidade de criar vínculos, desenvolver projetos e atribuir novos significados à existência. Nesse percurso, o propósito de vida e a participação em atividades significativas contribuem para um envelhecimento ativo, saudável e com qualidade de vida.
Mais do que simplesmente ocupar o tempo, as experiências que envolvem expressão, criatividade, aprendizagem e convivência permitem que a pessoa idosa se reconheça como alguém que ainda pode ensinar, criar, compartilhar e contribuir com a sociedade. Elas fortalecem sua autonomia, identidade, participação e sentimento de pertencimento, contrapondo-se às práticas que reduzem a velhice à dependência, à passividade ou à incapacidade.
A Arte no Envelhecimento: o Projeto GerArte e o Espaço Cultural do Congresso
A arte ocupa um lugar singular nesse processo. Dançar, cantar, pintar, escrever, ler ou assistir a uma narrativa são formas de dar movimento, cor e voz aos sentimentos, às memórias e à própria identidade. Além de mobilizarem dimensões cognitivas, emocionais e sociais, as diferentes linguagens artísticas podem ser adaptadas às habilidades, aos interesses e às trajetórias de cada pessoa. Desse modo, a arte acolhe histórias, revela potencialidades, fortalece vínculos e amplia a presença e a visibilidade das pessoas idosas na sociedade contemporânea.
Foi a partir dessa compreensão e do Projeto GerArte, idealizado por profissionais da Gerontogeriatria com o propósito de estudar e utilizar as diferentes formas de arte na promoção do envelhecimento saudável e na formação de profissionais que atuam com a população idosa, que se constituiu a programação cultural do 14º Congresso Sul-Brasileiro de Geriatria e Gerontologia e da 35ª Jornada Paranaense de Geriatria e Gerontologia, realizados em 2026. O espaço cultural do congresso recebeu o nome Espaço GerArte Gilmar Calixto, em homenagem ao médico geriatra que, além de escritor, sempre foi um grande entusiasta das artes. O ambiente promoveu o encontro entre envelhecimento, arte, cultura, ciência e participação social, reconhecendo que a experiência humana de envelhecer não pode ser compreendida somente por indicadores clínicos, diagnósticos ou evidências científicas. Ela também se revela nos movimentos possíveis, nas memórias compartilhadas, nas imagens, nos sons, nas palavras e nas histórias que cada pessoa carrega consigo.
Eixo Corpo e Movimento: Dança, Memória e Presença em Cena
No eixo Corpo e Movimento, a programação contou com apresentações da Universidade Aberta da Pessoa Idosa (UNAPI), da Prefeitura de Colombo, incluindo uma roda de capoeira; com a Dança Circular do Grupo Boa Vista; e com o espetáculo “Deusas Encantadas: o Ciclo da Vida”, apresentado pelas Embaixadoras do Bem.
Ao ocuparem o palco de um congresso científico, as pessoas idosas colocaram-se no centro da cena. Cada apresentação revelou mais do que uma sequência de movimentos: tornou visíveis histórias, desafios superados, vínculos construídos e a coragem de continuar se mostrando ao mundo. Os corpos envelhecidos demonstraram que guardam memórias, comunicam afetos e permanecem capazes de criar beleza e produzir encontros.
Artes Visuais e Fotografia: Telas, Cores e o Giz que Floresce
As artes visuais também tiveram destaque. A exposição “As cores do meu Paraná” reuniu telas produzidas por pessoas idosas acolhidas pela Socorro aos Necessitados, sob a orientação de Douglas Krieger, pessoa idosa e voluntário da instituição. Mesmo sem experiência anterior com a pintura, os moradores foram incentivados a experimentar a tinta a óleo e a descobrir novas possibilidades de expressão. As obras foram expostas e comercializadas durante o congresso, conferindo visibilidade à produção dos participantes e reafirmando sua capacidade de aprender e criar. Douglas Krieger também contou com um espaço destinado à exposição de seus próprios trabalhos.
A programação recebeu ainda o varal fotográfico do projeto de Chalk Art “Primavera Florescendo”, promovido pela Revista Cuidar em 2025. A iniciativa foi desenvolvida em Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs), com a criação de cenários e ilustrações em giz nos quais os moradores foram fotografados. No congresso, as imagens cedidas pelas instituições participantes transformaram os espaços de circulação em ambientes de apreciação e encontro, permitindo que essas experiências alcançassem novos públicos.

Varal de Poesias: Palavras e Aquarelas que Atravessam Histórias
No campo da literatura, destacou-se o Varal de Poesias, organizado como exposição permanente. A iniciativa reuniu poemas de autores sul-brasileiros e aquarelas produzidas por pessoas idosas residentes no Residencial Sênior Terça da Serra Curitiba – Batel. Participaram moradores com diferentes níveis de funcionalidade, em sua maioria pessoas idosas com demência. Para favorecer o envolvimento de todos, foram utilizadas técnicas adaptadas, respeitando as habilidades preservadas, os modos singulares de expressão e o tempo de cada pessoa.
Entre as obras expostas, dois poemas foram escritos por Marlene Coutinho, residente da instituição e primeira bailarina do Teatro Guaíra. Sua participação aproximou diferentes momentos de uma trajetória atravessada pela arte: o corpo que se expressou nos palcos por meio da dança encontrou, na velhice, outras maneiras de permanecer em movimento, agora pela poesia e pela memória compartilhada. A seleção dos poemas contou com a colaboração da Dra. Ana Lúcia Fiebrantz, da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Academia de Letras do Brasil.
O Varal de Poesias promoveu um encontro delicado entre palavras e imagens. De um lado, poemas que narravam sentimentos, lugares e experiências; de outro, cores produzidas por mãos marcadas por histórias singulares. Juntas, poesias e aquarelas demonstraram que a criação artística não depende de um desempenho idealizado, mas da existência de oportunidades, adaptações, acolhimento e reconhecimento.

Estande da Socorro aos Necessitados: Oficinas Produtivas e Economia Solidária
Entre os estandes do congresso, destacou-se o da Socorro aos Necessitados, com o tema “Oficinas produtivas na ILPI”. O espaço apresentou os resultados de oficinas terapêuticas ocupacionais desenvolvidas com os moradores e fundamentadas nos princípios da economia solidária.
No contexto da instituição, a economia solidária manifesta-se na cooperação, na participação nas decisões, no reconhecimento das habilidades e na divisão justa dos resultados. Os moradores são envolvidos de acordo com seus interesses, suas possibilidades e seu próprio ritmo. Desse modo, deixam de ser apenas destinatários de uma atividade e passam a ser reconhecidos como autores, produtores e participantes de todo o processo.
As oficinas são organizadas para que as produções tenham início, desenvolvimento e conclusão. Entre os produtos mais comercializados estiveram brincos e chaveiros de resina, além dos escalda-pés. Para a confecção destes, os moradores participaram do plantio de ervas e chás na nova horta institucional, implantada durante o mandato do Dr. Carlos Roberto de Matos, com mudas doadas pela Imobiliária Wayne. Posteriormente, realizaram a colheita e a secagem das plantas, com o apoio do setor de Nutrição, e participaram da montagem dos saquinhos, em colaboração com estagiários e voluntários do curso de Terapia Ocupacional da UFPR, voluntários institucionais e integrantes da equipe multidisciplinar.
Assim, cada escalda-pés apresentado no congresso carregava muito mais do que ervas cultivadas na instituição. Ele representava um percurso de escolhas, aprendizagem, cuidado, cooperação e trabalho coletivo. Em cada etapa, havia a participação dos moradores e o reconhecimento de que todo fazer pode adquirir significado quando aquele que o realiza compreende sua finalidade e se vê representado no resultado.
Livro Vivos: Autoria, Memória e Reconhecimento
O estande também apresentou a terceira edição do Livro Vivos, produzida com o apoio da Editora Voz Cartoneira e da professora universitária Andreia Maria Carneiro Lobo. A obra reúne histórias que os moradores da Socorro aos Necessitados desejaram contar. Em formato cartoneiro, cada exemplar recebeu uma capa confeccionada coletivamente por muitas mãos, tornando-se único e carregando as marcas daqueles que participaram de sua criação.
Os valores arrecadados com os produtos confeccionados nos grupos terapêuticos foram destinados às ações institucionais. Já nas produções artísticas e artesanais individuais, o valor integral das vendas foi entregue aos próprios autores, reconhecendo seu trabalho, sua autoria e seu direito de decidir sobre os recursos obtidos. O morador Manoel, por exemplo, arrecadou mais de dois mil reais com a comercialização de suas pinturas em tela e papel.
Mais do que expor e comercializar produtos, o estande tornou visível um processo baseado em respeito e participação. A ocupação produtiva, quando construída com propósito e de maneira compartilhada, pode fortalecer a autonomia, a identidade, o senso de pertencimento e o reconhecimento do valor social do fazer dentro da ILPI.
Os trabalhos apresentados no estande e a organização do Varal de Poesias foram coordenados por Amanda Brissi, terapeuta ocupacional da Socorro aos Necessitados e especialista em Gerontologia titulada pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO). A profissional também foi responsável pela curadoria artística plástica do congresso, articulando instituições, artistas, grupos e pessoas idosas na construção do Espaço GerArte Gilmar Calixto.

Leituras e Lançamentos: Literatura que Atravessa Gerações
A programação literária incluiu ainda a leitura da prosa poética “O velho pequeno príncipe”, do Dr. Gilmar Calixto, realizada pelo Grupo Casa do Contador de Histórias. A apresentação foi conduzida pela voluntária Júlia Cardoso Puchivailo, cuja interpretação deu voz e emoção à narrativa. Médico e escritor dedicado às reflexões sobre o envelhecimento, Gilmar Calixto aproximou conhecimento, literatura e experiência humana, convidando o público a refletir sobre o tempo, os vínculos e os sentidos construídos ao longo da vida.
Outro momento significativo foi o lançamento de “Poemas do Silêncio”, de Cenira Bovo de Loiola. Embora escrito anteriormente, o livro ainda não havia sido lançado oficialmente, pois a autora, professora de Literatura, priorizou o acesso de seus alunos em situação de vulnerabilidade social à leitura. Após um longo período de tratamento e recuperação decorrente de uma queda em sua residência, Cenira reencontrou em sua obra a possibilidade de retomar sonhos e construir novos propósitos.
O valor arrecadado com a venda dos livros durante o congresso foi destinado à Fundação de Ação Social Alvorecer, instituição na qual Cenira e o marido atuam voluntariamente há mais de dez anos. O lançamento representou, assim, não apenas uma conquista pessoal, mas a continuidade de uma trajetória marcada pela literatura, pela solidariedade e pelo compromisso com o próximo.
Vozes e Diálogos: Música e Reflexão sobre a Longevidade
Na música, o congresso recebeu o Coral Belas Flores, do Convento das Irmãs da Divina Providência, sob a regência de Claudimara Zanchetta. As vozes reunidas demonstraram a força da experiência coletiva e a capacidade da música de aproximar pessoas, despertar lembranças e produzir afetos, construindo uma atmosfera de acolhimento e pertencimento.
Complementando as experiências presenciais, foi exibido no Espaço Conviver 60+, com apoio da terapeuta ocupacional Taiuani Marquine Raymundo, o documentário “Conversas nas Zonas Azuis: Veranópolis e as Blue Zones”. A produção ampliou o diálogo sobre envelhecimento e longevidade, convidando o público a refletir sobre hábitos, vínculos, comunidade, propósito de vida e as diferentes formas de atribuir sentido à existência, oportunizando um debate riquíssimo com a diretora do documentário Lilian Liang, que esteve presencialmente no evento e no momento do Cine-Debate.
Apoio e Parcerias: a Chácara Flora Senior Living
Entre os apoiadores do evento, destacou-se a Chácara Flora Senior Living, que presenteou os responsáveis pelas comissões do congresso com suco de uva e geleia artesanal. Os produtos foram preparados com uvas cultivadas na própria parreira da instituição e confeccionados em sua cozinha rural, com a participação de profissionais e residentes e o cumprimento dos cuidados sanitários necessários. Mais do que um gesto de acolhimento, a iniciativa valorizou habilidades, fortaleceu vínculos e conferiu visibilidade ao que é produzido coletivamente no cotidiano da instituição.
Considerações Finais: Arte, Ciência e o Direito de Continuar Ocupando o Mundo
A programação cultural do 14º Congresso Sul-Brasileiro de Geriatria e Gerontologia e da 35ª Jornada Paranaense de Geriatria e Gerontologia ultrapassou a ideia de entretenimento ou atividade complementar. O Espaço GerArte Gilmar Calixto constituiu-se como uma experiência de participação, convivência e valorização das potencialidades presentes ao longo do envelhecimento. Ao dialogar com a ciência, a arte trouxe para o centro do evento dimensões humanas que nem sempre podem ser mensuradas de modo tangível.
A presença de pessoas idosas como artistas, autoras, intérpretes e produtoras reafirmou a importância de espaços que reconheçam seus conhecimentos, histórias e talentos. Ao ocuparem palcos, exposições, corredores e momentos literários, elas demonstraram que envelhecer também pode significar aprender, criar, compartilhar, emocionar e deixar marcas na vida de outras pessoas.
Promover saúde na velhice também significa garantir oportunidades para que cada pessoa continue pertencendo, escolhendo, expressando-se e sendo reconhecida. Quando uma pessoa idosa dança, pinta, canta, escreve ou compartilha sua história, ela não apresenta apenas uma produção artística: oferece ao mundo parte de si mesma. No Espaço GerArte Gilmar Calixto, a arte revelou aquilo que o envelhecimento jamais deveria apagar: a singularidade de cada trajetória e o direito de continuar ocupando o mundo com voz, movimento, memória, beleza e significado.

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