- Duas faces de uma mesma moeda
- O coração: o gestor que dá o tom
- O cérebro: enfermagem e profissionais de saúde
- Os pulmões: cuidadores de idosos e técnicos que sustentam o dia a dia
- O fígado: nutrição e cozinha
- Os rins: limpeza e manutenção
- A pele: equipe administrativa e serviço social
- Quando o corpo ganha mais partes: a equipe multiprofissional
- Um organismo vivo
- O convite desta semana
- Um convite para todo esse corpo: o MPC Brasil 2026
Texto inspirado em uma reflexão sobre gestão humanizada nas Residências Sanitárias Assistenciais (RSA) na Itália, adaptado à realidade das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) no Brasil.
Imagine, por um instante, um corpo humano. Nenhum órgão trabalha sozinho: o coração bombeia, os pulmões respiram, o fígado processa, os rins filtram, a pele protege. É essa cooperação silenciosa, quase sempre invisível a olho nu, que sustenta a vida. Uma Instituição de Longa Permanência para Idosos funciona exatamente assim. Também é um organismo vivo. E sua saúde depende de cada parte cumprindo bem a sua função, e de todas elas respirando no mesmo ritmo.
Duas faces de uma mesma moeda
Há uma ideia repetida com frequência nas ILPI, mas raramente compreendida em toda a sua profundidade: melhorar a assistência por meio de uma gestão eficaz e melhorar a gestão por meio de uma assistência de excelência não são dois objetivos diferentes. São a mesma coisa, vista de dois ângulos.
A premissa é simples de enunciar, e mais difícil de sustentar no dia a dia: a assistência melhora quando a gestão é sólida, e a gestão só se torna eficiente de verdade quando nasce de uma assistência de qualidade. Não existe boa gestão que não se traduza em cuidado. E não existe cuidado de excelência que se sustente no tempo sem uma gestão que o organize, o proteja e o alimente. As duas dimensões se entrelaçam, e é desse encontro que nasce o bem-estar de residentes e equipe.
O coração: o gestor que dá o tom
Se a ILPI é um corpo, o gestor é o coração. Não porque manda mais do que os outros órgãos, mas porque é quem dá o ritmo. Cada decisão sua (a forma como recebe uma reclamação, como escuta um colaborador exausto, como resolve um conflito entre equipes) bate como uma pulsação que se propaga por toda a instituição.
Cabe ao gestor inspirar o time, promovendo uma cultura de empatia, competência técnica, respeito e cuidado. Sua atuação organiza o ambiente de trabalho, define o clima entre os colaboradores e, no fim das contas, determina a qualidade do serviço prestado aos residentes. Uma gestão humanizada se traduz, na rotina da ILPI, em uma assistência humanizada. Não como discurso emoldurado na parede, mas como causa e efeito, todos os dias.
Vale dizer também o que raramente se diz em voz alta: um coração exausto bombeia mal. Gestores que carregam sozinhos o peso emocional e financeiro da instituição, sem rede de apoio, sem pausa, sem reconhecimento, arriscam adoecer exatamente a função que sustenta todo o resto. Cuidar de quem cuida, inclusive de quem gerencia, também é parte da manutenção do próprio coração da casa, não um extra para quando sobra tempo.
O cérebro: enfermagem e profissionais de saúde
Enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais profissionais de saúde formam o cérebro da ILPI. São eles que planejam, avaliam e executam os cuidados técnicos e médicos de que cada residente precisa: da administração correta de medicamentos à leitura fina dos sinais que antecipam uma intercorrência antes que ela se torne emergência. É a enfermeira que, na troca de plantão, repara que a respiração de um residente mudou sutilmente, e decide investigar antes, não depois.
Assim como o cérebro coordena e regula todas as funções do corpo, é esta equipe que garante que a assistência seja apropriada, segura e eficaz. Um plano de cuidado bem desenhado e revisado com regularidade é o que permite que os demais órgãos deste corpo trabalhem com confiança, sabendo que existe uma inteligência técnica orientando o conjunto.
Os pulmões: cuidadores de idosos e técnicos que sustentam o dia a dia
São três da manhã. Dona Alzira não consegue dormir e chama baixinho. Não é uma emergência médica. É medo, misturado com solidão e com uma lembrança antiga que voltou sem avisar. Não existe protocolo que substitua a mão que segura a dela até o sono voltar. Isso também é respirar pela instituição.
Se o cérebro planeja, são os cuidadores de idosos e técnicos de enfermagem que respiram pela instituição, hora após hora. Oferecem o suporte cotidiano e essencial: o banho, a troca, a companhia durante a refeição, a presença nas madrugadas mais difíceis. Assim como os pulmões fornecem oxigênio e mantêm o corpo em funcionamento, esta equipe sustenta a vida com presença, conforto e assistência contínua. É o trabalho fisicamente mais exaustivo e emocionalmente mais denso da casa, e ainda assim o menos visível nos relatórios de gestão.
E o que vale para o coração vale também aqui: um pulmão exausto também perde fôlego. O esgotamento de quem cuida na linha de frente (turnos dobrados, noites maldormidas, o peso emocional de acompanhar perdas repetidas) pesa tanto quanto o do gestor, e pede a mesma resposta: escala humana, pausa de verdade, espaço para falar do que pesa. Reconhecimento em palavras não substitui isso. Uma ILPI só respira porque eles respiram por ela, e merecem, de vez em quando, a chance de recuperar o fôlego.
O fígado: nutrição e cozinha
A equipe de nutrição e cozinha simboliza o fígado. Processa e distribui os nutrientes necessários ao bem-estar dos residentes, transformando insumos em refeições que precisam ser, ao mesmo tempo, seguras, saborosas e adequadas a cada condição clínica.
Assim como o fígado metaboliza e desintoxica, esta equipe garante que o alimento oferecido seja saudável e equilibrado. Diante de disfagias, restrições e comorbidades tão frequentes no envelhecimento, essa função técnica se torna também um ato diário de cuidado clínico: silencioso, mas decisivo.
Os rins: limpeza e manutenção
A equipe de limpeza e manutenção representa os rins. Garante a eliminação de impurezas e a manutenção de um ambiente saudável: do controle rigoroso de infecções à manutenção preventiva que evita quedas, vazamentos e riscos que passam despercebidos até virarem urgência.
Assim como os rins filtram as toxinas do corpo, esta equipe cuida para que o ambiente da ILPI permaneça limpo, seguro e digno. É um trabalho que raramente aparece em algum relatório, mas cuja ausência se faz sentir imediatamente. Nenhum órgão nobre substitui um rim que parou de filtrar.
A pele: equipe administrativa e serviço social
Por fim, a equipe administrativa e o(a) assistente social simbolizam a pele. Servem de interface entre a ILPI e o mundo exterior, protegendo e regulando as interações com famílias, comunidade, órgãos fiscalizadores e fornecedores.
Assim como a pele protege o corpo e regula as trocas com o ambiente externo, esta equipe assegura que a ILPI seja um espaço acolhedor, bem gerido e transparente, capaz de comunicar às famílias, com clareza e sensibilidade, tanto as boas notícias quanto as mais difíceis.
Quando o corpo ganha mais partes: a equipe multiprofissional
Nem toda ILPI tem os mesmos recursos, e isso também faz parte da realidade que este texto quer honrar. Quando a equipe multiprofissional se amplia, o corpo da instituição ganha mais partes especializadas, e cada uma merece ser nomeada.
Os olhos são a psicologia. É quem enxerga o que não está na superfície: o luto que ainda não foi dito, o medo por trás de uma recusa, a solidão disfarçada de mau humor. Também cuida de quem cuida: a equipe, e não só o residente, precisa às vezes de um olhar que não julga.
A boca e a garganta são a fonoaudiologia. Cuida de duas coisas que parecem simples e não são: comunicar-se e engolir com segurança. Uma disfagia não tratada é risco de vida silencioso; uma voz que ninguém ajuda a manter é uma forma de isolamento que pesa sobre a saúde e o ânimo.
Os músculos e as articulações são a fisioterapia e a educação física. Uma reabilita, a outra mantém e previne. Juntas, ajudam a preservar o que cada residente ainda consegue fazer com o próprio corpo, no ritmo e no limite de cada um. Cada grau de mobilidade mantido é também um grau a mais de autonomia no dia a dia.
As mãos são a terapia ocupacional. Não as mãos do residente apenas: as mãos que reinventam o jeito de vestir um botão difícil, de seguir preparando o café que sempre preparou, de continuar sendo autor da própria rotina, mesmo quando o corpo já não coopera como antes.
E o sangue que circula por todos esses órgãos, ligando um ao outro, é a gerontologia. Não é mais um órgão isolado: é o que corre por dentro de todos os outros. É a especialidade voltada, desde a formação, a pensar o envelhecimento como um processo único, biológico, psicológico e social ao mesmo tempo, e não como uma soma de partes separadas. Onde presente, o gerontólogo é quem ajuda o corpo inteiro a lembrar que, por trás de cada função e de cada órgão, existe sempre a mesma pessoa, envelhecendo à sua própria maneira.
Quando presente, cada uma dessas especialidades soma força ao organismo inteiro. Onde ainda não estão presentes (porque a realidade de muitas ILPI, sobretudo as menores, é de equipes reduzidas), o cuidado que fariam continua sendo necessário, e vale a pena existir como horizonte a perseguir, mesmo sem o título formal no quadro de funcionários.
Um organismo vivo
Cada órgão é essencial à vida do corpo, do maior ao mais discreto, do sempre presente ao que nem toda casa ainda tem condição de sustentar. Cada profissional é vital ao funcionamento harmonioso da ILPI. Juntos, formam um organismo vivo, no qual a saúde e o bem-estar de todos, residentes e equipe, só se sustentam através de uma gestão integrada e uma assistência diligente.
Nenhum órgão, por mais forte que seja, compensa a falência crônica de outro. Um cérebro brilhante não substitui pulmões exaustos; um coração dedicado não repõe rins negligenciados. E um corpo saudável não é aquele onde nada dói: é aquele em que a dor é notada e cuidada antes de virar lesão permanente. Isso vale para o gestor exausto e para o cuidador exausto, na mesma medida.
Talvez a pergunta que todo gestor de ILPI devesse se fazer não seja “qual órgão está funcionando melhor”, e sim: há algum órgão deste corpo que estamos deixando de escutar?
O convite desta semana
Não é preciso resolver tudo de uma vez, nem seria honesto prometer isso. Na próxima reunião de equipe, uma pergunta simples pode abrir uma conversa que normalmente não acontece: qual órgão deste corpo você sente que está com mais dificuldade para respirar essa semana?
Deixe cada pessoa responder pela função que ocupa, não pela hierarquia que ocupa: o cozinheiro e a auxiliar de limpeza têm tanto a dizer quanto o enfermeiro ou o gestor. Escute sem pressa de corrigir. Depois, escolha com a equipe um único cuidado pequeno, prático e visível em sete dias, para aquele órgão específico. Não para consertar a ILPI inteira de uma vez. Só para lembrar, coletivamente, que cuidar bem de pessoas idosas começa por notar, primeiro, onde o próprio corpo que cuida está doendo.
Um convite para todo esse corpo: o MPC Brasil 2026
Gestor, enfermagem, cuidadores, nutrição, limpeza, administrativo, psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia, educação física, terapia ocupacional, gerontologia: todo esse corpo que este texto tentou descrever, órgão por órgão, tem um encontro marcado. Nos dias 1 e 2 de outubro de 2026, em São José do Rio Preto (SP), acontece o MPC Brasil, o primeiro Encontro Nacional de ILPI do país, realizado pela Revista Cuidar em parceria com a Revista CURA, da Itália, onde o formato já soma doze anos de história.
São dois dias completos de imersão, sem palco distante e sem hierarquia entre quem fala e quem escuta, o mesmo espírito que este texto tentou defender algumas linhas acima. Ao todo, 35 especialistas, 16 workshops (dos quais cada participante escolhe 4), 4 plenárias e certificado de 12 horas. Alguns temas conversam diretamente com o que foi levantado aqui: “O Cuidado de Quem Cuida”, sobre reconhecer sinais de esgotamento antes que virem adoecimento, e “Do Corpo à Pessoa”, sobre gerontologia aplicada, estão entre as opções dos dois dias.
O lema do encontro resume, talvez melhor do que qualquer metáfora, o que importa por trás de cada órgão que nomeamos aqui: “Não corpos, pessoas.”
As inscrições se encerram em 10 de setembro de 2026, e as turmas dos workshops têm vagas limitadas por ordem de inscrição. Mais informações e inscrição em revistacuidar.com.br/mpc.
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- Um organismo vivo
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Texto inspirado em uma reflexão sobre gestão humanizada nas Residências Sanitárias Assistenciais (RSA) na Itália, adaptado à realidade das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) no Brasil.
Imagine, por um instante, um corpo humano. Nenhum órgão trabalha sozinho: o coração bombeia, os pulmões respiram, o fígado processa, os rins filtram, a pele protege. É essa cooperação silenciosa, quase sempre invisível a olho nu, que sustenta a vida. Uma Instituição de Longa Permanência para Idosos funciona exatamente assim. Também é um organismo vivo. E sua saúde depende de cada parte cumprindo bem a sua função, e de todas elas respirando no mesmo ritmo.
Duas faces de uma mesma moeda
Há uma ideia repetida com frequência nas ILPI, mas raramente compreendida em toda a sua profundidade: melhorar a assistência por meio de uma gestão eficaz e melhorar a gestão por meio de uma assistência de excelência não são dois objetivos diferentes. São a mesma coisa, vista de dois ângulos.
A premissa é simples de enunciar, e mais difícil de sustentar no dia a dia: a assistência melhora quando a gestão é sólida, e a gestão só se torna eficiente de verdade quando nasce de uma assistência de qualidade. Não existe boa gestão que não se traduza em cuidado. E não existe cuidado de excelência que se sustente no tempo sem uma gestão que o organize, o proteja e o alimente. As duas dimensões se entrelaçam, e é desse encontro que nasce o bem-estar de residentes e equipe.
O coração: o gestor que dá o tom
Se a ILPI é um corpo, o gestor é o coração. Não porque manda mais do que os outros órgãos, mas porque é quem dá o ritmo. Cada decisão sua (a forma como recebe uma reclamação, como escuta um colaborador exausto, como resolve um conflito entre equipes) bate como uma pulsação que se propaga por toda a instituição.
Cabe ao gestor inspirar o time, promovendo uma cultura de empatia, competência técnica, respeito e cuidado. Sua atuação organiza o ambiente de trabalho, define o clima entre os colaboradores e, no fim das contas, determina a qualidade do serviço prestado aos residentes. Uma gestão humanizada se traduz, na rotina da ILPI, em uma assistência humanizada. Não como discurso emoldurado na parede, mas como causa e efeito, todos os dias.
Vale dizer também o que raramente se diz em voz alta: um coração exausto bombeia mal. Gestores que carregam sozinhos o peso emocional e financeiro da instituição, sem rede de apoio, sem pausa, sem reconhecimento, arriscam adoecer exatamente a função que sustenta todo o resto. Cuidar de quem cuida, inclusive de quem gerencia, também é parte da manutenção do próprio coração da casa, não um extra para quando sobra tempo.
O cérebro: enfermagem e profissionais de saúde
Enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais profissionais de saúde formam o cérebro da ILPI. São eles que planejam, avaliam e executam os cuidados técnicos e médicos de que cada residente precisa: da administração correta de medicamentos à leitura fina dos sinais que antecipam uma intercorrência antes que ela se torne emergência. É a enfermeira que, na troca de plantão, repara que a respiração de um residente mudou sutilmente, e decide investigar antes, não depois.
Assim como o cérebro coordena e regula todas as funções do corpo, é esta equipe que garante que a assistência seja apropriada, segura e eficaz. Um plano de cuidado bem desenhado e revisado com regularidade é o que permite que os demais órgãos deste corpo trabalhem com confiança, sabendo que existe uma inteligência técnica orientando o conjunto.
Os pulmões: cuidadores de idosos e técnicos que sustentam o dia a dia
São três da manhã. Dona Alzira não consegue dormir e chama baixinho. Não é uma emergência médica. É medo, misturado com solidão e com uma lembrança antiga que voltou sem avisar. Não existe protocolo que substitua a mão que segura a dela até o sono voltar. Isso também é respirar pela instituição.
Se o cérebro planeja, são os cuidadores de idosos e técnicos de enfermagem que respiram pela instituição, hora após hora. Oferecem o suporte cotidiano e essencial: o banho, a troca, a companhia durante a refeição, a presença nas madrugadas mais difíceis. Assim como os pulmões fornecem oxigênio e mantêm o corpo em funcionamento, esta equipe sustenta a vida com presença, conforto e assistência contínua. É o trabalho fisicamente mais exaustivo e emocionalmente mais denso da casa, e ainda assim o menos visível nos relatórios de gestão.
E o que vale para o coração vale também aqui: um pulmão exausto também perde fôlego. O esgotamento de quem cuida na linha de frente (turnos dobrados, noites maldormidas, o peso emocional de acompanhar perdas repetidas) pesa tanto quanto o do gestor, e pede a mesma resposta: escala humana, pausa de verdade, espaço para falar do que pesa. Reconhecimento em palavras não substitui isso. Uma ILPI só respira porque eles respiram por ela, e merecem, de vez em quando, a chance de recuperar o fôlego.
O fígado: nutrição e cozinha
A equipe de nutrição e cozinha simboliza o fígado. Processa e distribui os nutrientes necessários ao bem-estar dos residentes, transformando insumos em refeições que precisam ser, ao mesmo tempo, seguras, saborosas e adequadas a cada condição clínica.
Assim como o fígado metaboliza e desintoxica, esta equipe garante que o alimento oferecido seja saudável e equilibrado. Diante de disfagias, restrições e comorbidades tão frequentes no envelhecimento, essa função técnica se torna também um ato diário de cuidado clínico: silencioso, mas decisivo.
Os rins: limpeza e manutenção
A equipe de limpeza e manutenção representa os rins. Garante a eliminação de impurezas e a manutenção de um ambiente saudável: do controle rigoroso de infecções à manutenção preventiva que evita quedas, vazamentos e riscos que passam despercebidos até virarem urgência.
Assim como os rins filtram as toxinas do corpo, esta equipe cuida para que o ambiente da ILPI permaneça limpo, seguro e digno. É um trabalho que raramente aparece em algum relatório, mas cuja ausência se faz sentir imediatamente. Nenhum órgão nobre substitui um rim que parou de filtrar.
A pele: equipe administrativa e serviço social
Por fim, a equipe administrativa e o(a) assistente social simbolizam a pele. Servem de interface entre a ILPI e o mundo exterior, protegendo e regulando as interações com famílias, comunidade, órgãos fiscalizadores e fornecedores.
Assim como a pele protege o corpo e regula as trocas com o ambiente externo, esta equipe assegura que a ILPI seja um espaço acolhedor, bem gerido e transparente, capaz de comunicar às famílias, com clareza e sensibilidade, tanto as boas notícias quanto as mais difíceis.
Quando o corpo ganha mais partes: a equipe multiprofissional
Nem toda ILPI tem os mesmos recursos, e isso também faz parte da realidade que este texto quer honrar. Quando a equipe multiprofissional se amplia, o corpo da instituição ganha mais partes especializadas, e cada uma merece ser nomeada.
Os olhos são a psicologia. É quem enxerga o que não está na superfície: o luto que ainda não foi dito, o medo por trás de uma recusa, a solidão disfarçada de mau humor. Também cuida de quem cuida: a equipe, e não só o residente, precisa às vezes de um olhar que não julga.
A boca e a garganta são a fonoaudiologia. Cuida de duas coisas que parecem simples e não são: comunicar-se e engolir com segurança. Uma disfagia não tratada é risco de vida silencioso; uma voz que ninguém ajuda a manter é uma forma de isolamento que pesa sobre a saúde e o ânimo.
Os músculos e as articulações são a fisioterapia e a educação física. Uma reabilita, a outra mantém e previne. Juntas, ajudam a preservar o que cada residente ainda consegue fazer com o próprio corpo, no ritmo e no limite de cada um. Cada grau de mobilidade mantido é também um grau a mais de autonomia no dia a dia.
As mãos são a terapia ocupacional. Não as mãos do residente apenas: as mãos que reinventam o jeito de vestir um botão difícil, de seguir preparando o café que sempre preparou, de continuar sendo autor da própria rotina, mesmo quando o corpo já não coopera como antes.
E o sangue que circula por todos esses órgãos, ligando um ao outro, é a gerontologia. Não é mais um órgão isolado: é o que corre por dentro de todos os outros. É a especialidade voltada, desde a formação, a pensar o envelhecimento como um processo único, biológico, psicológico e social ao mesmo tempo, e não como uma soma de partes separadas. Onde presente, o gerontólogo é quem ajuda o corpo inteiro a lembrar que, por trás de cada função e de cada órgão, existe sempre a mesma pessoa, envelhecendo à sua própria maneira.
Quando presente, cada uma dessas especialidades soma força ao organismo inteiro. Onde ainda não estão presentes (porque a realidade de muitas ILPI, sobretudo as menores, é de equipes reduzidas), o cuidado que fariam continua sendo necessário, e vale a pena existir como horizonte a perseguir, mesmo sem o título formal no quadro de funcionários.
Um organismo vivo
Cada órgão é essencial à vida do corpo, do maior ao mais discreto, do sempre presente ao que nem toda casa ainda tem condição de sustentar. Cada profissional é vital ao funcionamento harmonioso da ILPI. Juntos, formam um organismo vivo, no qual a saúde e o bem-estar de todos, residentes e equipe, só se sustentam através de uma gestão integrada e uma assistência diligente.
Nenhum órgão, por mais forte que seja, compensa a falência crônica de outro. Um cérebro brilhante não substitui pulmões exaustos; um coração dedicado não repõe rins negligenciados. E um corpo saudável não é aquele onde nada dói: é aquele em que a dor é notada e cuidada antes de virar lesão permanente. Isso vale para o gestor exausto e para o cuidador exausto, na mesma medida.
Talvez a pergunta que todo gestor de ILPI devesse se fazer não seja “qual órgão está funcionando melhor”, e sim: há algum órgão deste corpo que estamos deixando de escutar?
O convite desta semana
Não é preciso resolver tudo de uma vez, nem seria honesto prometer isso. Na próxima reunião de equipe, uma pergunta simples pode abrir uma conversa que normalmente não acontece: qual órgão deste corpo você sente que está com mais dificuldade para respirar essa semana?
Deixe cada pessoa responder pela função que ocupa, não pela hierarquia que ocupa: o cozinheiro e a auxiliar de limpeza têm tanto a dizer quanto o enfermeiro ou o gestor. Escute sem pressa de corrigir. Depois, escolha com a equipe um único cuidado pequeno, prático e visível em sete dias, para aquele órgão específico. Não para consertar a ILPI inteira de uma vez. Só para lembrar, coletivamente, que cuidar bem de pessoas idosas começa por notar, primeiro, onde o próprio corpo que cuida está doendo.
Um convite para todo esse corpo: o MPC Brasil 2026
Gestor, enfermagem, cuidadores, nutrição, limpeza, administrativo, psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia, educação física, terapia ocupacional, gerontologia: todo esse corpo que este texto tentou descrever, órgão por órgão, tem um encontro marcado. Nos dias 1 e 2 de outubro de 2026, em São José do Rio Preto (SP), acontece o MPC Brasil, o primeiro Encontro Nacional de ILPI do país, realizado pela Revista Cuidar em parceria com a Revista CURA, da Itália, onde o formato já soma doze anos de história.
São dois dias completos de imersão, sem palco distante e sem hierarquia entre quem fala e quem escuta, o mesmo espírito que este texto tentou defender algumas linhas acima. Ao todo, 35 especialistas, 16 workshops (dos quais cada participante escolhe 4), 4 plenárias e certificado de 12 horas. Alguns temas conversam diretamente com o que foi levantado aqui: “O Cuidado de Quem Cuida”, sobre reconhecer sinais de esgotamento antes que virem adoecimento, e “Do Corpo à Pessoa”, sobre gerontologia aplicada, estão entre as opções dos dois dias.
O lema do encontro resume, talvez melhor do que qualquer metáfora, o que importa por trás de cada órgão que nomeamos aqui: “Não corpos, pessoas.”
As inscrições se encerram em 10 de setembro de 2026, e as turmas dos workshops têm vagas limitadas por ordem de inscrição. Mais informações e inscrição em revistacuidar.com.br/mpc.
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