Por: Sara Sabbadin – Psicóloga.  Artigo Revista Cura – autorizado para a Revista Cuidar (Todos os direitos reservados – qualquer parte do artigo utilizado externamente deverá citar a fonte) – Traduzido por: Aline Salla


São muitos os cuidados que podem favorecer a adaptação à vida na instituição para uma pessoa que entra em uma ILPI (Instituição de Longa Permanência para pessoas Idosas). A psicóloga italiana, colunista da Revista Cura irmã da Revista Cuidar, Sara Sabbadin, explica como o ambiente desempenha um papel fundamental nesse sentido, devido à sua profunda conexão com a identidade da pessoa.

O ambiente expressa a identidade da pessoa

Quando você muda de casa, a primeira coisa que faz é adaptá-la à sua personalidade.

Você procura transformar aquele espaço anônimo no seu espaço, mobiliando-o com os seus objetos; você o colore, o molda de acordo com a sua individualidade.

Você faz isso quando compra uma casa, quando a aluga e até mesmo quando fica nela durante alguns dias de férias: também nesse caso, organiza os objetos que levou consigo de acordo com o seu estilo.

Não existe uma casa igual à outra.

Mesmo naqueles bairros formados por casas construídas em série, até mesmo nos arranha-céus com dezenas e dezenas de apartamentos, se abríssemos a porta de cada um deles, não encontraríamos nenhum igual ao outro.

O ambiente em que vivemos é expressão da nossa identidade.

Experimentem fechar os olhos por um momento e pensar no quarto de vocês, na sala de estar, na cozinha.

O que torna esses lugares a sua casa?

Certamente não é o contrato que vocês assinaram ou o financiamento que contrataram.

É a maneira como vocês a moldaram de acordo com as próprias necessidades que realmente a torna sua, permitindo atribuir a ela aquele sentimento de pertencimento que faz vocês se sentirem seguros.

O sentimento de segurança que um lugar nos transmite está firmemente ligado ao grau em que sentimos que aquele lugar nos pertence.

Identidade de lugar e psicologia ambiental

Segundo a psicologia ambiental, os lugares que habitamos ao longo da vida contribuem para moldar nossa identidade e, ao mesmo tempo, o contrário também é verdadeiro: podemos expressar nossa identidade justamente por meio da transformação do ambiente, tornando-o coerente com ela.

Trata-se de um processo circular de influência mútua que continua enquanto vivemos.

O psicólogo americano Harold Proshansky, no final dos anos 1970, foi o primeiro a definir esse profundo vínculo entre indivíduo e ambiente, falando em “identidade de lugar” (place identity).

“A identidade de lugar refere-se às dimensões do eu que definem a identidade pessoal do indivíduo em relação ao ambiente físico, por meio de um complexo sistema de ideias, crenças, preferências, sentimentos, valores e objetivos conscientes e inconscientes, juntamente com as tendências comportamentais e as habilidades relevantes para esse ambiente” (Proshansky, 1983).

É com base nesse sistema de elementos que o indivíduo se orienta no mundo, decodificando o ambiente que percorre como mais ou menos seguro, buscando continuamente uma coerência entre aquilo que o rodeia e aquilo que o faz sentir-se bem.

Por que o idoso não reconhece a própria casa

Uma tradução prática do valor identitário atribuído ao ambiente pode ser observada nas pessoas com demência, quando, em um estágio já moderado da doença, começam a pedir insistentemente para serem levadas para casa, mesmo estando em sua própria casa.

Na maioria das vezes, o que elas querem dizer é a casa da infância e da juventude, aquela que conseguem recordar com mais facilidade, porque ainda não foi engolida pela doença.

Mas não é somente isso: por trás da busca pela casa em uma pessoa com demência está a busca por segurança, por um espaço familiar e emocionalmente significativo.

É uma busca por proteção, proporcionada pelo sentimento de pertencimento, distante do caos envolvente da doença que a aflige.

Entrada na ILPI e ambientes acolhedores

A consciência do valor identitário do ambiente ajuda a dar significado ao sofrimento vivido por quem precisa mudar de lugar de vida, obrigado pelas necessidades decorrentes de um estado de saúde ou de uma condição social que o impede de permanecer em sua própria casa.

Um sofrimento que se intensifica e se torna mais complexo quando quem precisa mudar de lugar de vida é uma pessoa com demência.

Como quando a pessoa passa a viver em uma ILPI, por exemplo.

Passar a viver em uma instituição, para quem sofre de transtornos cognitivos, é uma mudança extremamente complexa, que deve ser conduzida respeitando-se tempos adequados para permitir um conhecimento mútuo entre quem chegará e quem estará acolhendo; o maior grau possível de sinceridade com todas as pessoas envolvidas; um apoio prático e psicológico no primeiro período à pessoa e aos seus familiares, que precisam se adaptar de maneiras diferentes, mas com a mesma intensidade.

Mas também exige um cuidado delicado para tornar o ambiente que irá recebê-la… verdadeiramente acolhedor.

Além dos parâmetros da RDC 502/2021

Que atenção damos a esses mecanismos quando pensamos em como melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem em uma ILPI?

A RDC nº 502/2021, que estabelece padrões mínimos para o funcionamento das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), contempla aspectos relacionados às condições físicas, estruturais, sanitárias e organizacionais necessárias ao funcionamento desses serviços. Esses requisitos são fundamentais para garantir condições adequadas de segurança, higiene, acessibilidade e cuidado às pessoas idosas.

Uma ILPI, enquanto espaço coletivo de moradia e cuidado, precisa garantir condições adequadas nos quartos e áreas de circulação, mobiliário que permita higienização e ofereça segurança, iluminação suficiente, além de recursos e condições que favoreçam o trabalho dos profissionais e a prestação dos cuidados.

Mas, para além dos requisitos estabelecidos pela legislação, é importante considerar quais elementos, do ponto de vista arquitetônico e organizacional, podem contribuir para que a ILPI também seja um lugar de vida, e não apenas um espaço de cuidado, tornando-se um ambiente verdadeiramente significativo para aqueles que nele vivem.

Esperamos, muitas vezes, que a pessoa se adapte, de preferência rapidamente, a um espaço de vida pensado para protegê-la, mas que para ela é completamente anônimo.

Esse é um ponto-chave da adaptação, o obstáculo doloroso no qual esbarram todos aqueles que passam a viver em uma instituição.

Uma dificuldade que se intensifica para quem tem demência, que já está agarrado a uma identidade que se desfaz e que, de repente, se vê diante da necessidade de mudar de lugar, rostos, ruídos, cores e ritmos de vida.

A adaptação à vida na instituição: o papel dos ambientes

Pensemos na possibilidade de personalizar o quarto: um tema tão complexo do ponto de vista organizacional quanto ainda pouco explorado.

E, obviamente, existe uma relação de causalidade entre esses dois aspectos.

Poder levar seus próprios móveis é uma esperança de muitas pessoas que inevitavelmente naufraga entre as políticas organizacionais internas e as normas de segurança e proteção contra incêndios, às quais toda instituição deve necessariamente obedecer.

Um ponto de equilíbrio entre a pouco realista mudança completa do próprio quarto para a ILPI e o anonimato total de uma cama e de uma mesa de cabeceira produzidas em série poderia, porém, ser uma meta a ser perseguida.

Pedimos às mulheres e aos homens que vêm viver na instituição que considerem aquela cama e aquela mesa de cabeceira como sua nova casa e, se possível, que façam isso relativamente rápido, sem grandes objeções.

Nas reuniões da equipe em que refletimos sobre a qualidade da adaptação dos “novos ingressantes”, verificamos se eles compreenderam os ritmos e as regras, se convivem tranquilamente com os demais residentes, se participam das atividades, se comem e dormem, se o humor está suficientemente bom diante de uma mudança de vida que é muito mais do que radical.

Adaptar-se ao ambiente é uma constante na vida do ser humano: é um mecanismo fundamental de sobrevivência para enfrentar o mundo.

Mas existem situações em que isso é mais difícil e nas quais precisamos de mais ajuda.

A adaptação à vida na instituição é uma delas e são numerosos os cuidados e as ações que facilitam esse processo, começando por um ambiente claro, não patologizante, que respeite a capacidade de escolha que ainda é possível.

Estratégias práticas para favorecer a adaptação na ILPI

Um ponto fundamental da nossa reflexão também deveria ser sobre como favorecer a reconstrução de um espaço de segurança para a pessoa, ou seja, como ajudá-la a reconstruir um ambiente coerente com sua identidade.

Não é preciso muito.

Lembro-me de uma senhora que viveu durante muito tempo em nossa instituição: assim que você entrava em seu quarto, era como ser transportado para uma sala de estar de uma casa.

Os móveis eram todos da instituição, mas sobre a mesa de cabeceira e a escrivaninha havia uma profusão de seus paninhos de crochê e porta-retratos; na poltrona estavam a sua manta pessoal, o seu travesseiro, o seu livro.

Na porta do guarda-roupa havia o seu calendário; nas paredes estavam os seus quadros.

Nas janelas, uma infinidade de suas flores.

O quarto que havíamos destinado a ela originalmente era padronizado, como os demais.

A senhora havia vindo morar na instituição para ficar ao lado do marido, que apresentava graves problemas de saúde, abandonando com grande sofrimento uma bela casa onde ainda poderia viver tranquilamente, cercada pelas flores que gostava de cultivar.

Ela me confidenciou que, depois de um período inicial de profundo desânimo por tudo o que havia deixado para trás, sentiu necessidade de sentir-se dona daquele novo espaço para o qual a vida a havia levado, de reencontrar, entre aquelas paredes anônimas, um sentimento de casa que lhe fazia muita falta.

A ILPI não é a Casa e nunca será, mas pode ser uma nova casa.

Mudar a perspectiva em todos os níveis na ILPI

É uma mudança fundamental de perspectiva que a levou, de uma posição de submissão passiva aos acontecimentos, a agir para se reencontrar em um espaço que ela não teria escolhido.

Incentivar esse pensamento, favorecê-lo também naqueles que, perdidos, chegam à instituição com um sentimento de total estranhamento em relação ao ambiente, é uma alavanca que deve ser acionada em todos os níveis.

No âmbito clínico, nas conversas com a pessoa, e no âmbito administrativo, para incentivar também ali — onde, concretamente, se decide o que pode ou não ser feito — uma reflexão mais ampla sobre a natureza dos cuidados possíveis dentro das ILPIs.

About the Author: Editorial Revista Cuidar

Edição Internacional - Artigos de autores internacionais com direitos autorais autorizados exclusivamente para a Revista Cuidar em parceria.

Gratidão de coração

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Por: Sara Sabbadin – Psicóloga.  Artigo Revista Cura – autorizado para a Revista Cuidar (Todos os direitos reservados – qualquer parte do artigo utilizado externamente deverá citar a fonte) – Traduzido por: Aline Salla


São muitos os cuidados que podem favorecer a adaptação à vida na instituição para uma pessoa que entra em uma ILPI (Instituição de Longa Permanência para pessoas Idosas). A psicóloga italiana, colunista da Revista Cura irmã da Revista Cuidar, Sara Sabbadin, explica como o ambiente desempenha um papel fundamental nesse sentido, devido à sua profunda conexão com a identidade da pessoa.

O ambiente expressa a identidade da pessoa

Quando você muda de casa, a primeira coisa que faz é adaptá-la à sua personalidade.

Você procura transformar aquele espaço anônimo no seu espaço, mobiliando-o com os seus objetos; você o colore, o molda de acordo com a sua individualidade.

Você faz isso quando compra uma casa, quando a aluga e até mesmo quando fica nela durante alguns dias de férias: também nesse caso, organiza os objetos que levou consigo de acordo com o seu estilo.

Não existe uma casa igual à outra.

Mesmo naqueles bairros formados por casas construídas em série, até mesmo nos arranha-céus com dezenas e dezenas de apartamentos, se abríssemos a porta de cada um deles, não encontraríamos nenhum igual ao outro.

O ambiente em que vivemos é expressão da nossa identidade.

Experimentem fechar os olhos por um momento e pensar no quarto de vocês, na sala de estar, na cozinha.

O que torna esses lugares a sua casa?

Certamente não é o contrato que vocês assinaram ou o financiamento que contrataram.

É a maneira como vocês a moldaram de acordo com as próprias necessidades que realmente a torna sua, permitindo atribuir a ela aquele sentimento de pertencimento que faz vocês se sentirem seguros.

O sentimento de segurança que um lugar nos transmite está firmemente ligado ao grau em que sentimos que aquele lugar nos pertence.

Identidade de lugar e psicologia ambiental

Segundo a psicologia ambiental, os lugares que habitamos ao longo da vida contribuem para moldar nossa identidade e, ao mesmo tempo, o contrário também é verdadeiro: podemos expressar nossa identidade justamente por meio da transformação do ambiente, tornando-o coerente com ela.

Trata-se de um processo circular de influência mútua que continua enquanto vivemos.

O psicólogo americano Harold Proshansky, no final dos anos 1970, foi o primeiro a definir esse profundo vínculo entre indivíduo e ambiente, falando em “identidade de lugar” (place identity).

“A identidade de lugar refere-se às dimensões do eu que definem a identidade pessoal do indivíduo em relação ao ambiente físico, por meio de um complexo sistema de ideias, crenças, preferências, sentimentos, valores e objetivos conscientes e inconscientes, juntamente com as tendências comportamentais e as habilidades relevantes para esse ambiente” (Proshansky, 1983).

É com base nesse sistema de elementos que o indivíduo se orienta no mundo, decodificando o ambiente que percorre como mais ou menos seguro, buscando continuamente uma coerência entre aquilo que o rodeia e aquilo que o faz sentir-se bem.

Por que o idoso não reconhece a própria casa

Uma tradução prática do valor identitário atribuído ao ambiente pode ser observada nas pessoas com demência, quando, em um estágio já moderado da doença, começam a pedir insistentemente para serem levadas para casa, mesmo estando em sua própria casa.

Na maioria das vezes, o que elas querem dizer é a casa da infância e da juventude, aquela que conseguem recordar com mais facilidade, porque ainda não foi engolida pela doença.

Mas não é somente isso: por trás da busca pela casa em uma pessoa com demência está a busca por segurança, por um espaço familiar e emocionalmente significativo.

É uma busca por proteção, proporcionada pelo sentimento de pertencimento, distante do caos envolvente da doença que a aflige.

Entrada na ILPI e ambientes acolhedores

A consciência do valor identitário do ambiente ajuda a dar significado ao sofrimento vivido por quem precisa mudar de lugar de vida, obrigado pelas necessidades decorrentes de um estado de saúde ou de uma condição social que o impede de permanecer em sua própria casa.

Um sofrimento que se intensifica e se torna mais complexo quando quem precisa mudar de lugar de vida é uma pessoa com demência.

Como quando a pessoa passa a viver em uma ILPI, por exemplo.

Passar a viver em uma instituição, para quem sofre de transtornos cognitivos, é uma mudança extremamente complexa, que deve ser conduzida respeitando-se tempos adequados para permitir um conhecimento mútuo entre quem chegará e quem estará acolhendo; o maior grau possível de sinceridade com todas as pessoas envolvidas; um apoio prático e psicológico no primeiro período à pessoa e aos seus familiares, que precisam se adaptar de maneiras diferentes, mas com a mesma intensidade.

Mas também exige um cuidado delicado para tornar o ambiente que irá recebê-la… verdadeiramente acolhedor.

Além dos parâmetros da RDC 502/2021

Que atenção damos a esses mecanismos quando pensamos em como melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem em uma ILPI?

A RDC nº 502/2021, que estabelece padrões mínimos para o funcionamento das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), contempla aspectos relacionados às condições físicas, estruturais, sanitárias e organizacionais necessárias ao funcionamento desses serviços. Esses requisitos são fundamentais para garantir condições adequadas de segurança, higiene, acessibilidade e cuidado às pessoas idosas.

Uma ILPI, enquanto espaço coletivo de moradia e cuidado, precisa garantir condições adequadas nos quartos e áreas de circulação, mobiliário que permita higienização e ofereça segurança, iluminação suficiente, além de recursos e condições que favoreçam o trabalho dos profissionais e a prestação dos cuidados.

Mas, para além dos requisitos estabelecidos pela legislação, é importante considerar quais elementos, do ponto de vista arquitetônico e organizacional, podem contribuir para que a ILPI também seja um lugar de vida, e não apenas um espaço de cuidado, tornando-se um ambiente verdadeiramente significativo para aqueles que nele vivem.

Esperamos, muitas vezes, que a pessoa se adapte, de preferência rapidamente, a um espaço de vida pensado para protegê-la, mas que para ela é completamente anônimo.

Esse é um ponto-chave da adaptação, o obstáculo doloroso no qual esbarram todos aqueles que passam a viver em uma instituição.

Uma dificuldade que se intensifica para quem tem demência, que já está agarrado a uma identidade que se desfaz e que, de repente, se vê diante da necessidade de mudar de lugar, rostos, ruídos, cores e ritmos de vida.

A adaptação à vida na instituição: o papel dos ambientes

Pensemos na possibilidade de personalizar o quarto: um tema tão complexo do ponto de vista organizacional quanto ainda pouco explorado.

E, obviamente, existe uma relação de causalidade entre esses dois aspectos.

Poder levar seus próprios móveis é uma esperança de muitas pessoas que inevitavelmente naufraga entre as políticas organizacionais internas e as normas de segurança e proteção contra incêndios, às quais toda instituição deve necessariamente obedecer.

Um ponto de equilíbrio entre a pouco realista mudança completa do próprio quarto para a ILPI e o anonimato total de uma cama e de uma mesa de cabeceira produzidas em série poderia, porém, ser uma meta a ser perseguida.

Pedimos às mulheres e aos homens que vêm viver na instituição que considerem aquela cama e aquela mesa de cabeceira como sua nova casa e, se possível, que façam isso relativamente rápido, sem grandes objeções.

Nas reuniões da equipe em que refletimos sobre a qualidade da adaptação dos “novos ingressantes”, verificamos se eles compreenderam os ritmos e as regras, se convivem tranquilamente com os demais residentes, se participam das atividades, se comem e dormem, se o humor está suficientemente bom diante de uma mudança de vida que é muito mais do que radical.

Adaptar-se ao ambiente é uma constante na vida do ser humano: é um mecanismo fundamental de sobrevivência para enfrentar o mundo.

Mas existem situações em que isso é mais difícil e nas quais precisamos de mais ajuda.

A adaptação à vida na instituição é uma delas e são numerosos os cuidados e as ações que facilitam esse processo, começando por um ambiente claro, não patologizante, que respeite a capacidade de escolha que ainda é possível.

Estratégias práticas para favorecer a adaptação na ILPI

Um ponto fundamental da nossa reflexão também deveria ser sobre como favorecer a reconstrução de um espaço de segurança para a pessoa, ou seja, como ajudá-la a reconstruir um ambiente coerente com sua identidade.

Não é preciso muito.

Lembro-me de uma senhora que viveu durante muito tempo em nossa instituição: assim que você entrava em seu quarto, era como ser transportado para uma sala de estar de uma casa.

Os móveis eram todos da instituição, mas sobre a mesa de cabeceira e a escrivaninha havia uma profusão de seus paninhos de crochê e porta-retratos; na poltrona estavam a sua manta pessoal, o seu travesseiro, o seu livro.

Na porta do guarda-roupa havia o seu calendário; nas paredes estavam os seus quadros.

Nas janelas, uma infinidade de suas flores.

O quarto que havíamos destinado a ela originalmente era padronizado, como os demais.

A senhora havia vindo morar na instituição para ficar ao lado do marido, que apresentava graves problemas de saúde, abandonando com grande sofrimento uma bela casa onde ainda poderia viver tranquilamente, cercada pelas flores que gostava de cultivar.

Ela me confidenciou que, depois de um período inicial de profundo desânimo por tudo o que havia deixado para trás, sentiu necessidade de sentir-se dona daquele novo espaço para o qual a vida a havia levado, de reencontrar, entre aquelas paredes anônimas, um sentimento de casa que lhe fazia muita falta.

A ILPI não é a Casa e nunca será, mas pode ser uma nova casa.

Mudar a perspectiva em todos os níveis na ILPI

É uma mudança fundamental de perspectiva que a levou, de uma posição de submissão passiva aos acontecimentos, a agir para se reencontrar em um espaço que ela não teria escolhido.

Incentivar esse pensamento, favorecê-lo também naqueles que, perdidos, chegam à instituição com um sentimento de total estranhamento em relação ao ambiente, é uma alavanca que deve ser acionada em todos os níveis.

No âmbito clínico, nas conversas com a pessoa, e no âmbito administrativo, para incentivar também ali — onde, concretamente, se decide o que pode ou não ser feito — uma reflexão mais ampla sobre a natureza dos cuidados possíveis dentro das ILPIs.

About the Author: Editorial Revista Cuidar

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Gratidão de coração

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One Comment

  1. Iride 13/09/2026 at 08:55 - Reply

    Excelente. Todas as ILPIS deviam adotar estas medidas dentro do possível e de acordo com as demandas pessoais que sustentem sua identidade psicológica, emocional e espiritual da pessoa idosa. Porque isso representa o ser pessoa, a aceitação, dignidade, respeito e felicidade na continuidade do viver com autonomia e qualidade de vida!

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