Adaptado a partir da reportagem original de Raffaella Lovaglio, publicada na ©Rivista Cura (Itália)parceira internacional da ©Revista Cuidar – no coração das ILPI.

Nas últimas semanas, escrevemos sobre o Brasil que abandona quem envelhece: leitos hospitalares que viram endereço fixo, municípios que bancam sozinhos o que deveria ser dever de todos, normas esquecidas em gavetas por vinte anos. Depois de tanto diagnóstico, talvez valha fazer uma pergunta diferente: quando o cuidado dá certo, o que acontece depois que a pessoa se vai?

Uma reportagem da nossa parceira italiana, a Rivista Cura, encontrou uma resposta que vale a pena atravessar o oceano.

Um pedaço de salame, para ninguém em especial

Alguns meses depois da morte da mãe, Urbano voltou à instituição onde ela vivia. Trouxe um pedaço de salame, um vinho lambrusco e uma salada de chicória romana temperada com azeite e limão — a chicória que a própria Bianca, nos últimos anos, ajudara a cultivar na horta da instituição, ao lado de funcionários e outros residentes.

Naquele dia, Urbano não tinha nenhuma pendência administrativa para resolver, nem uma data especial para celebrar. Queria, simplesmente, compartilhar aquela comida com as pessoas que haviam conhecido sua mãe.

A cena se repetiu o suficiente, com famílias diferentes, para que a equipe da Casa Residência para Idosos de Cavriago, na região italiana de Reggio Emilia, começasse a se perguntar: por que algumas famílias continuam voltando, mesmo depois que a pessoa querida já não está mais lá?

O que a pergunta administrativa escondia

No início, as visitas vinham com justificativa concreta: um casaco esquecido para buscar, um formulário para retirar, uma dúvida burocrática — coisas que, no fundo, poderiam ter sido resolvidas por telefone.

Com o tempo, a equipe percebeu que a questão real era outra. Segundo Raffaella Lovaglio, coordenadora da instituição e autora da reportagem original, muitas dessas pessoas não estavam voltando por causa de uma pendência. Estavam tentando entender que lugar ocupam agora num mundo do qual fizeram parte durante anos.

Dessa observação nasceu o projeto Radici — Raízes.

Raízes: famílias não são visitantes

O nome não é acidental. As relações construídas ao longo do cuidado, explica Lovaglio, se parecem com as raízes de uma planta: muitas vezes invisíveis, mas seguem sustentando, alimentando e mantendo as pessoas unidas mesmo quando as circunstâncias mudam.

A premissa do projeto é simples e, ao mesmo tempo, uma inversão completa de como a maioria das instituições — no Brasil e em qualquer lugar — costuma tratar quem visita: famílias não são visitantes. São parte essencial da comunidade de cuidado.

Na prática, isso significa que a equipe de Cavriago não busca conhecer apenas a história da pessoa idosa residente. Busca conhecer também a história de quem está ao lado dela — os talentos, as paixões, as competências que cada familiar pode compartilhar. Há quem saiba cuidar de uma horta, quem toque um instrumento, quem conte histórias, quem tenha conhecimento profissional que possa virar recurso para todos.

Esses talentos não ficam guardados. Viram oficinas, atividades compartilhadas, momentos de encontro, voluntariado em passeios. Não porque seja preciso “fazer alguma coisa” com cada família — mas para que cada pessoa possa se sentir parte da vida daquela comunidade também através do que sabe oferecer.

E quando a perda chega, esse patrimônio não desaparece.

Gestos pequenos, verdade grande

A reportagem original traz outros exemplos, igualmente simples. Giorgio e Sveva acompanham ao cemitério e fazem companhia, nas festas de fim de ano, a uma senhora que conheceram nos anos em que a mãe de Sveva vivia na instituição. O filho de Guido ainda passa para deixar moedas na máquina de café, exatamente como o pai fazia. E, toda última sexta-feira do mês, chega a pizza trazida pelo filho de Maria — que boa parte da equipe atual nunca conheceu, mas cuja história todos sabem contar, porque a pizza virou o pretexto para lembrá-la de novo.

São gestos pequenos. Mas contam uma verdade que poucos indicadores de qualidade conseguem medir: algumas relações continuam existindo mesmo depois que o motivo que as originou já não existe mais.

E no Brasil?

Seria fácil ler este texto como uma curiosidade europeia, distante da realidade que documentamos nas últimas semanas — municípios que não recebem repasse nenhum, equipes reduzidas ao mínimo, gestores sobrecarregados demais para pensar em qualquer coisa além de manter a instituição funcionando. Não é ingenuidade: replicar um projeto estruturado como o Radici, com tempo de equipe dedicado a mapear talentos de famílias inteiras, é um privilégio que a maioria das ILPIs brasileiras hoje não tem condição de bancar. Isso também é parte do que expusemos até aqui.

Mas o princípio por trás do Radici não custa dinheiro. Custa disposição.

Não depende de financiamento tratar uma família como parte da comunidade, e não como uma visita a ser tolerada. Não depende de orçamento perguntar a um filho ou uma neta o que ele sabe fazer, em vez de perguntar só o que ele precisa. Não depende de edital reconhecer, antes da perda, o valor de quem está por perto — para que, depois da perda, essa pessoa ainda tenha um lugar para onde voltar.

Talvez essa seja a pergunta que este texto deixa, complementar à que fizemos nas últimas semanas. Não é só “em que condições queremos ser cuidados quando chegar a nossa vez” — é também: que tipo de lugar estamos construindo para quem vai continuar amando a gente depois que a gente se for?