Como quem viveu dois mundos aprende, aos poucos, a atravessar as telas – e por que vale a pena o esforço, mesmo com os riscos pelo caminho.
Por Suely Tonarque
A grande maioria de nós, velhas e velhos, não dominamos com precisão a tecnologia, afinal, somos a geração que presenciou as transformações rápidas e abruptas do século passado para o atual – carregamos a experiência de dois mundos distintos na nossa subjetividade. Escrevo pensando em quem, como eu, viveu essa travessia – e em vocês que moram numa ILPI, onde tudo isso chega mais perto.
Telefones grandes e que não tinham botões, inexistência de celulares, redes sociais, inteligência artificial, internet, etc.: são todos fatos e objetos que atravessavam nosso cotidiano quando éramos jovens. Hoje, num mundo conectado, virtual, com máquinas que lembram pessoas em alguns momentos, não é fácil navegar sentindo-se apropriada e segura. Cada aplicativo novo parece a chegada a um país estrangeiro: os sinais estão ali, mas o sentido escapa.
O mundo em que aprendemos a viver era muito diferente: hoje estamos tentando reaprender a viver no mesmo mundo, que está completamente diferente. Nossa época era mais simples do que hoje; os recursos tecnológicos eram muito mais fáceis de serem usados e suas capacidades muito inferiores comparadas com as atuais.
Quando pegamos nossos celulares para fazer algo ou usamos nossos computadores, estamos nos esforçando para poder participar deste mundo; a questão é que as transformações aconteceram e não houve nada para preparar quem nasceu no mundo analógico – a gente teve que pegar o bonde andando. O simples quase não tem mais espaço atualmente.
Esse bombardeamento hiper-complexo distancia cada um de si e dos outros; talvez a palavra “sofisticação” tenha mostrado seu lado ruim. Nós, velhos e velhas, fomos alfabetizadas pela cartilha, à moda “Ba” “Be” “Bi” “Bo” “Bu”. Hoje, não é raro vermos, numa visita à ILPI, uma criança de colo jogando jogos sofisticados no celular dos pais. A gente observa e se pergunta: será que um dia alcançamos essa naturalidade?
Podemos falar em (re)alfabetização digital para nós. Este processo, quem passa sabe por que sente, demanda desejo, vontade e muita paciência. É um esforço contínuo aprender e reaprender algo considerado básico para os dias atuais, é como se a gente precisasse aprender de novo a ler e fazer conta de mais e menos para ir ao mercado.
O que a tecnologia aproxima
E vale a pena insistir nesse esforço. Para quem mora numa ILPI, a tecnologia tem se mostrado uma parceira e tanto no dia a dia: uma videochamada aproxima quem está longe, uma mensagem de voz leva carinho até quem a gente ama, uma fotografia guardada no celular registra um momento que, antes, ficaria só na lembrança. Ela também ajuda a afastar aquele isolamento e aquela solidão que, às vezes, teimam em aparecer – e, de quebra, ainda exercita a cabeça: joguinhos, aplicativos e pequenos desafios que dão trabalho à memória e à atenção, como quem se movimenta todos os dias para não perder as forças. Tem quem reencontrou uma amiga de infância por um grupo de mensagens, tem quem faz consulta médica pela tela, sem sair do quarto.
O outro lado da tela
Ainda assim, é fácil se sentir perdida nesta complexidade e, frequentemente, desamparada para resolver um problema específico do dia a dia que envolva tecnologia. E, ainda por cima, tem pessoas que exploram as dificuldades que temos com o mundo digital: os golpes contra idosos ganharam atenção recentemente por causa da sua frequência. É muito comum ver, ouvir e experienciar tentativas de fraudes digitais.
As modalidades de golpes são diversas: mensagem de golpista se passando por parente pedindo Pix, telefone de golpista se passando por banco, clonagens das mais variadas, golpista entregando “presente” de moto para roubar dinheiro com o cartão de crédito, etc.
Esses criminosos tentam se aproveitar da nossa falta de “sofisticação”. Nossas dificuldades fazem com que sejamos mais vulneráveis a estes riscos. Pessoas que conseguem navegar com facilidade manipulam as tecnologias para que a gente não perceba a enganação. Por isso, dentro da ILPI, vale sempre parar e perguntar a um cuidador ou a um familiar antes de responder a uma mensagem ou a uma ligação suspeita. Um golpe não rouba só dinheiro: mexe com a confiança, com a autoestima, com a vontade de continuar tentando.
Entre saudade e coragem
O tempo em que vivíamos não volta mais: ir ao banco e pegar fila, pagar conta com cheque, receber talão pelo correio e tantas outras coisas não vão mais ser usadas. Resta o consolo de contar, com saudades, para nossos netos, sobrinhos o mundo que eles não viram, mas que nós sentimos até hoje. Essa simplicidade não vai mais estar presente (não essa simplicidade, quem sabe). Hoje precisamos nos sofisticar e, para isso, é sempre bom termos a coragem de pedir ajuda, de aprender e de estar com outras pessoas para ter amparo. Para quem vive numa ILPI, essa rede está sempre por perto: um cuidador, uma vizinha de corredor, um familiar ou amigos do outro lado da tela.
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Como quem viveu dois mundos aprende, aos poucos, a atravessar as telas – e por que vale a pena o esforço, mesmo com os riscos pelo caminho.
Por Suely Tonarque
A grande maioria de nós, velhas e velhos, não dominamos com precisão a tecnologia, afinal, somos a geração que presenciou as transformações rápidas e abruptas do século passado para o atual – carregamos a experiência de dois mundos distintos na nossa subjetividade. Escrevo pensando em quem, como eu, viveu essa travessia – e em vocês que moram numa ILPI, onde tudo isso chega mais perto.
Telefones grandes e que não tinham botões, inexistência de celulares, redes sociais, inteligência artificial, internet, etc.: são todos fatos e objetos que atravessavam nosso cotidiano quando éramos jovens. Hoje, num mundo conectado, virtual, com máquinas que lembram pessoas em alguns momentos, não é fácil navegar sentindo-se apropriada e segura. Cada aplicativo novo parece a chegada a um país estrangeiro: os sinais estão ali, mas o sentido escapa.
O mundo em que aprendemos a viver era muito diferente: hoje estamos tentando reaprender a viver no mesmo mundo, que está completamente diferente. Nossa época era mais simples do que hoje; os recursos tecnológicos eram muito mais fáceis de serem usados e suas capacidades muito inferiores comparadas com as atuais.
Quando pegamos nossos celulares para fazer algo ou usamos nossos computadores, estamos nos esforçando para poder participar deste mundo; a questão é que as transformações aconteceram e não houve nada para preparar quem nasceu no mundo analógico – a gente teve que pegar o bonde andando. O simples quase não tem mais espaço atualmente.
Esse bombardeamento hiper-complexo distancia cada um de si e dos outros; talvez a palavra “sofisticação” tenha mostrado seu lado ruim. Nós, velhos e velhas, fomos alfabetizadas pela cartilha, à moda “Ba” “Be” “Bi” “Bo” “Bu”. Hoje, não é raro vermos, numa visita à ILPI, uma criança de colo jogando jogos sofisticados no celular dos pais. A gente observa e se pergunta: será que um dia alcançamos essa naturalidade?
Podemos falar em (re)alfabetização digital para nós. Este processo, quem passa sabe por que sente, demanda desejo, vontade e muita paciência. É um esforço contínuo aprender e reaprender algo considerado básico para os dias atuais, é como se a gente precisasse aprender de novo a ler e fazer conta de mais e menos para ir ao mercado.
O que a tecnologia aproxima
E vale a pena insistir nesse esforço. Para quem mora numa ILPI, a tecnologia tem se mostrado uma parceira e tanto no dia a dia: uma videochamada aproxima quem está longe, uma mensagem de voz leva carinho até quem a gente ama, uma fotografia guardada no celular registra um momento que, antes, ficaria só na lembrança. Ela também ajuda a afastar aquele isolamento e aquela solidão que, às vezes, teimam em aparecer – e, de quebra, ainda exercita a cabeça: joguinhos, aplicativos e pequenos desafios que dão trabalho à memória e à atenção, como quem se movimenta todos os dias para não perder as forças. Tem quem reencontrou uma amiga de infância por um grupo de mensagens, tem quem faz consulta médica pela tela, sem sair do quarto.
O outro lado da tela
Ainda assim, é fácil se sentir perdida nesta complexidade e, frequentemente, desamparada para resolver um problema específico do dia a dia que envolva tecnologia. E, ainda por cima, tem pessoas que exploram as dificuldades que temos com o mundo digital: os golpes contra idosos ganharam atenção recentemente por causa da sua frequência. É muito comum ver, ouvir e experienciar tentativas de fraudes digitais.
As modalidades de golpes são diversas: mensagem de golpista se passando por parente pedindo Pix, telefone de golpista se passando por banco, clonagens das mais variadas, golpista entregando “presente” de moto para roubar dinheiro com o cartão de crédito, etc.
Esses criminosos tentam se aproveitar da nossa falta de “sofisticação”. Nossas dificuldades fazem com que sejamos mais vulneráveis a estes riscos. Pessoas que conseguem navegar com facilidade manipulam as tecnologias para que a gente não perceba a enganação. Por isso, dentro da ILPI, vale sempre parar e perguntar a um cuidador ou a um familiar antes de responder a uma mensagem ou a uma ligação suspeita. Um golpe não rouba só dinheiro: mexe com a confiança, com a autoestima, com a vontade de continuar tentando.
Entre saudade e coragem
O tempo em que vivíamos não volta mais: ir ao banco e pegar fila, pagar conta com cheque, receber talão pelo correio e tantas outras coisas não vão mais ser usadas. Resta o consolo de contar, com saudades, para nossos netos, sobrinhos o mundo que eles não viram, mas que nós sentimos até hoje. Essa simplicidade não vai mais estar presente (não essa simplicidade, quem sabe). Hoje precisamos nos sofisticar e, para isso, é sempre bom termos a coragem de pedir ajuda, de aprender e de estar com outras pessoas para ter amparo. Para quem vive numa ILPI, essa rede está sempre por perto: um cuidador, uma vizinha de corredor, um familiar ou amigos do outro lado da tela.





