Artigo publicado na ©Revista Cura, Itália. Tradução autorizada para a ©Revista Cuidar por Aline Salla. (Todos os direitos reservados; favor citar a Revista Cuidar se usar o material.) – Sobre a autora: Francesca Poletti – Coordenadora de serviços domiciliares Apuane, Cooperativa G. Di Vittorio
O que significa, de fato, conseguir dar espaço ao desejo no Cuidado em uma ILPI?
Quantas vezes nos encontramos presos à pressão das tarefas a cumprir e acabamos pensando que as prioridades são outras?
A história de Azzurra, contada pela coordenadora Francesca Poletti, nos lembra que o desejo nos permite conhecer melhor a pessoa e, justamente por isso, compreender mais profundamente também suas necessidades.
O desejo como bússola
Estamos tão ocupados construindo “grandes coisas”, cumprindo procedimentos com nomes difíceis, respondendo a requisitos numéricos, explicando e quantificando o número de banhos dados e as horas dedicadas à higiene…
Que, às vezes, perdemos de vista a bússola do nosso viver e, portanto, do nosso trabalho cotidiano: o desejo!
A história de Azzurra
Durante anos prestamos assistência a Azzurra: uma corajosa senhora de noventa anos que viveu a guerra, teve cinco filhos, enfrentou a pobreza e a perda de autonomia.
Depois de alguns anos de assistência, uma auxiliar de saúde (Cuidadora italiana), em um dia qualquer e em um momento qualquer — um momento em que provavelmente ouvi com mais atenção do que de costume — me informa que a “folha de assinatura” não foi assinada nem recolhida.
“Por quê?”, pergunto.
“A filha não estava presente”, responde com simplicidade, quase com naturalidade, como algo habitual.
“Será que a Azzurra pode assinar?”, pergunto.
Azzurra é analfabeta.
Interrompo imediatamente qualquer atividade entediante que eu estava fazendo: isso me interessa muito mais.
“Paola”, digo, “pergunte à Azzurra se ela conhece alguma letra”.
A assinatura de Azzurra
Começa então uma jornada cheia de emoção.
Azzurra se emociona, espera ansiosa que alguém lhe traga um caderno, canetas, uma luz.
Diz: “Eu queria escrever o meu nome”.
Como ninguém pensou nisso antes?
Quem sabe.
Talvez porque estamos ocupados em um mundo frequentemente aprisionador de tarefas.
Não há tempo a perder: começamos.
Parece que sempre existe um fio invisível que conecta os acontecimentos, pois justamente nesses dias prestávamos assistência ao marido de quem foi minha professora do ensino fundamental.
Assim, pedimos a ela que nos explicasse como ensinar uma senhora de 90 anos a escrever.
Ela nos deu orientações, livretos, explicações.
Eu estava emocionada, ansiosa.
Paola me contava que Azzurra chorava quando conseguia escrever.
O tempo passou e estabelecemos um objetivo: 6 meses para conseguir fazer sua própria assinatura.
Os obstáculos ao desejo no cuidado
Nem todos os meses foram emocionantes: houve dias de frustração e de rotina.
Um desgaste prejudicial às vezes sufoca nossas emoções, nos anestesia.
É isso que nos leva à casa de Azzurra e nos faz dizer:
“Hoje ela não escreveu porque não havia canetas em casa”.
É isso que reforça o pensamento de um familiar que considera a limpeza da casa uma prioridade.
É isso que interrompe a jornada do desejo porque “Azzurra enxerga mal” ou “a luz não funciona”.
É isso que nos faz pensar: “Eu sou uma auxiliar de saúde, não uma professora!”
Os obstáculos ao desejo não eram de Azzurra, mas nossos.
Aquela preguiça disfarçada, aquela anestesia emocional que nos leva a cumprir tarefas na casa de Azzurra achando que ajudá-la a assinar é apenas “algo a mais”.
A autodeterminação de Azzurra
E, no entanto, o desejo de Azzurra não era um capricho, mas algo profundamente ligado à sua dignidade, à sua identidade e à sua autonomia.
Não era, portanto, algo essencial para ela? Não são os desejos que dão sentido à existência de uma pessoa?
Não seria então nosso dever — e também privilégio — partir justamente do desejo, mais do que das necessidades básicas?
No Cuidado, é justamente a partir do desejo expresso que a necessidade pode ser atendida de forma mais eficaz.
Azzurra às vezes vai ao hospital, depois volta para casa. Se passa muito tempo, penso que meu papel como coordenadora é lembrar a equipe de fazê-la praticar (porque esquecemos, porque passa despercebido, porque a luz não funciona, porque a caneta não escreve…).
Mas estou errada.
Azzurra, com sua força e determinação, nos lembra. E faz isso em silêncio, fazendo com que nos vejamos refletidos nela: nós, na nossa anestesia; ela, na sua coragem — olhos nos olhos, rotina contra vontade.
Azzurra nos ajuda a confrontar nosso hábito: tão silencioso, tão sutil, tão míope.
Conciliar procedimentos e desejos no cuidado
Hoje Azzurra sabe assinar em letra de forma e está aprendendo a cursiva.
Enquanto isso, a casa está limpa e o banho semanal é feito: nada foi tirado das tarefas necessárias.
Tudo foi acrescentado, feito junto, naquele intervalo entre o fazer e o estar.
Azzurra e sua experiência com o analfabetismo me ensinam que nunca é tarde e que podemos, se quisermos, ser testemunhas autênticas e participantes da realização de desejos — e ainda mais da autodeterminação.
Não como palavras vazias, mas como uma prática diária: que é competência, motivação, paixão, constância e determinação.
Azzurra e sua história de autodeterminação me ensinam que “Eu assino” significa “Eu decido por mim”, e este é um direito do qual devemos cuidar até o fim.
Adultos Idosos
Eventos e cultura
Artigo publicado na ©Revista Cura, Itália. Tradução autorizada para a ©Revista Cuidar por Aline Salla. (Todos os direitos reservados; favor citar a Revista Cuidar se usar o material.) – Sobre a autora: Francesca Poletti – Coordenadora de serviços domiciliares Apuane, Cooperativa G. Di Vittorio
O que significa, de fato, conseguir dar espaço ao desejo no Cuidado em uma ILPI?
Quantas vezes nos encontramos presos à pressão das tarefas a cumprir e acabamos pensando que as prioridades são outras?
A história de Azzurra, contada pela coordenadora Francesca Poletti, nos lembra que o desejo nos permite conhecer melhor a pessoa e, justamente por isso, compreender mais profundamente também suas necessidades.
O desejo como bússola
Estamos tão ocupados construindo “grandes coisas”, cumprindo procedimentos com nomes difíceis, respondendo a requisitos numéricos, explicando e quantificando o número de banhos dados e as horas dedicadas à higiene…
Que, às vezes, perdemos de vista a bússola do nosso viver e, portanto, do nosso trabalho cotidiano: o desejo!
A história de Azzurra
Durante anos prestamos assistência a Azzurra: uma corajosa senhora de noventa anos que viveu a guerra, teve cinco filhos, enfrentou a pobreza e a perda de autonomia.
Depois de alguns anos de assistência, uma auxiliar de saúde (Cuidadora italiana), em um dia qualquer e em um momento qualquer — um momento em que provavelmente ouvi com mais atenção do que de costume — me informa que a “folha de assinatura” não foi assinada nem recolhida.
“Por quê?”, pergunto.
“A filha não estava presente”, responde com simplicidade, quase com naturalidade, como algo habitual.
“Será que a Azzurra pode assinar?”, pergunto.
Azzurra é analfabeta.
Interrompo imediatamente qualquer atividade entediante que eu estava fazendo: isso me interessa muito mais.
“Paola”, digo, “pergunte à Azzurra se ela conhece alguma letra”.
A assinatura de Azzurra
Começa então uma jornada cheia de emoção.
Azzurra se emociona, espera ansiosa que alguém lhe traga um caderno, canetas, uma luz.
Diz: “Eu queria escrever o meu nome”.
Como ninguém pensou nisso antes?
Quem sabe.
Talvez porque estamos ocupados em um mundo frequentemente aprisionador de tarefas.
Não há tempo a perder: começamos.
Parece que sempre existe um fio invisível que conecta os acontecimentos, pois justamente nesses dias prestávamos assistência ao marido de quem foi minha professora do ensino fundamental.
Assim, pedimos a ela que nos explicasse como ensinar uma senhora de 90 anos a escrever.
Ela nos deu orientações, livretos, explicações.
Eu estava emocionada, ansiosa.
Paola me contava que Azzurra chorava quando conseguia escrever.
O tempo passou e estabelecemos um objetivo: 6 meses para conseguir fazer sua própria assinatura.
Os obstáculos ao desejo no cuidado
Nem todos os meses foram emocionantes: houve dias de frustração e de rotina.
Um desgaste prejudicial às vezes sufoca nossas emoções, nos anestesia.
É isso que nos leva à casa de Azzurra e nos faz dizer:
“Hoje ela não escreveu porque não havia canetas em casa”.
É isso que reforça o pensamento de um familiar que considera a limpeza da casa uma prioridade.
É isso que interrompe a jornada do desejo porque “Azzurra enxerga mal” ou “a luz não funciona”.
É isso que nos faz pensar: “Eu sou uma auxiliar de saúde, não uma professora!”
Os obstáculos ao desejo não eram de Azzurra, mas nossos.
Aquela preguiça disfarçada, aquela anestesia emocional que nos leva a cumprir tarefas na casa de Azzurra achando que ajudá-la a assinar é apenas “algo a mais”.
A autodeterminação de Azzurra
E, no entanto, o desejo de Azzurra não era um capricho, mas algo profundamente ligado à sua dignidade, à sua identidade e à sua autonomia.
Não era, portanto, algo essencial para ela? Não são os desejos que dão sentido à existência de uma pessoa?
Não seria então nosso dever — e também privilégio — partir justamente do desejo, mais do que das necessidades básicas?
No Cuidado, é justamente a partir do desejo expresso que a necessidade pode ser atendida de forma mais eficaz.
Azzurra às vezes vai ao hospital, depois volta para casa. Se passa muito tempo, penso que meu papel como coordenadora é lembrar a equipe de fazê-la praticar (porque esquecemos, porque passa despercebido, porque a luz não funciona, porque a caneta não escreve…).
Mas estou errada.
Azzurra, com sua força e determinação, nos lembra. E faz isso em silêncio, fazendo com que nos vejamos refletidos nela: nós, na nossa anestesia; ela, na sua coragem — olhos nos olhos, rotina contra vontade.
Azzurra nos ajuda a confrontar nosso hábito: tão silencioso, tão sutil, tão míope.
Conciliar procedimentos e desejos no cuidado
Hoje Azzurra sabe assinar em letra de forma e está aprendendo a cursiva.
Enquanto isso, a casa está limpa e o banho semanal é feito: nada foi tirado das tarefas necessárias.
Tudo foi acrescentado, feito junto, naquele intervalo entre o fazer e o estar.
Azzurra e sua experiência com o analfabetismo me ensinam que nunca é tarde e que podemos, se quisermos, ser testemunhas autênticas e participantes da realização de desejos — e ainda mais da autodeterminação.
Não como palavras vazias, mas como uma prática diária: que é competência, motivação, paixão, constância e determinação.
Azzurra e sua história de autodeterminação me ensinam que “Eu assino” significa “Eu decido por mim”, e este é um direito do qual devemos cuidar até o fim.





