Por Letizia Espanoli — Modelo Sente-Mente®   | Adaptação para o contexto brasileiro de ILPI  – autorizado para Revista Cuidar®   – Traduzido por: Aline Salla

E se as ideias pudessem nascer de baixo para cima? De equipes sociossanitárias tão apaixonadas pelo cuidado, tão tenazes a ponto de não recuar diante dos problemas, tão capazes de estudar e de investir tempo no conhecimento, que chegassem a criar projetos de assistência individualizada capazes de fazer a diferença na vida das pessoas?

Há poucos dias, um jovem diretor de uma instituição para idosos — movido pelo desejo de mudança, de inovação cultural e pela vontade verdadeira de “ser a diferença” — me trouxe três inquietações:

O que significa quando a nossa rotina reduz o médico a “ratificar” a contenção trimestralmente, sem revisá-la de verdade? Quando o enfermeiro deixa de sentir a descontenção como parte essencial do cuidar? Quando o fisioterapeuta perde de vista que o coração do seu trabalho é gerar movimento, em todas as suas formas?

Respondi que a pergunta certa não é “de quem é a culpa”, mas “qual é o projeto”. É hora de escrever o projeto trienal da instituição, de contar esse sonho à equipe e de apaixoná-la pela liberdade. Conseguiremos? Quando o porquê é forte, o como sempre se encontra.

E é preciso dizer com franqueza: na maioria das vezes, o problema não está no profissional à beira do leito. Está na ausência de método, de formação e de apoio — no subdimensionamento das equipes, na sobrecarga, na cultura institucional que ainda enxerga a contenção como “o jeito que sempre se fez”. Culpar quem cuida não muda nada; o que muda é a organização assumir a responsabilidade e criar condições para cuidar de outro modo.

Conhecer os efeitos reais do nosso gesto

Precisamos conhecer com exatidão não apenas o que nos leva a escolher a contenção como instrumento de cuidado, mas também os efeitos reais desse gesto — e nos perguntar se, pelas nossas próprias mãos, queremos mesmo que tudo isso aconteça.

A enfermagem reconhece que a contenção não é ato terapêutico. Tem caráter exclusivamente cautelar, excepcional e temporário; deve ser motivada, registrada e monitorada ao longo do tempo, verificando-se se ainda persistem as condições que a justificaram e se ela prejudicou a saúde da pessoa assistida.

No Brasil, esse princípio tem força normativa. A Resolução COFEN nº 746/2024 determina que a contenção mecânica só pode ser empregada quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente, veda seu uso para disciplina, punição, coerção ou por conveniência da instituição e exige monitoramento rigoroso e registro em prontuário. No horizonte está, ainda, o art. 5º, III, da Constituição: “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

É preciso, porém, evitar o simplismo. Há situações clínicas legítimas — um delirium grave, o risco iminente de autoagressão, a retirada de um dispositivo vital — em que a contenção, breve, motivada e reavaliada, pode ser eticamente justificável. O problema não é a exceção bem indicada, mas a contenção que vira rotina: prolongada, automática e nunca revista. É essa — frequente e acrítica — que sinaliza fragilidade organizacional, e não toda e qualquer contenção.

O que é, afinal, cuidar?

Acredito que precisamos de diretores, coordenadores e conselhos de administração capazes de se comprometer com projetos reais de mudança. O cuidado não está na palavra, mas no gesto que encarna paixão, interesse e atenção ao detalhe. E está, sobretudo, na ideia que carregamos na cabeça: prolongar a vida ou criar, todos os dias, instantes de alegria, encanto e admiração?

Cuidar é quando você não olha para a pessoa idosa como um objeto a ser “remendado” ou consertado, mas como alguém com a sua autodeterminação. Cuidar é quando você enxerga a doença e a velhice como uma experiência que não define a identidade — não é “ele não entende nada”, “com ele não dá para fazer atividade”, “ele é um vegetal” —, mas uma experiência rica de aqui e agora, que cada profissional pode enriquecer e que o Projeto de Assistência Individualizado tem a responsabilidade de melhorar.

Quem persegue esse pensamento não se “contenta” com a proteção e com a mera redução do risco quando é o próprio idoso que paga o preço. Penso em como o movimento permanece fundamental, e em como é cruel apenas imaginar que uma pessoa idosa passe horas em uma cadeira de rodas, sem um projeto real e específico de mobilidade. Admiro as direções que, com seus fisioterapeutas, souberam fazer a diferença e criam movimento de todas as formas, com gosto e inovação.

Os mitos que nos prendem

É importante reconhecer, nas dobras da cultura organizacional, certas “ideias rastejantes e terríveis” que sustentam a contenção:

  • Não há alternativas à contenção.
  • Não conter expõe a equipe e a instituição a risco jurídico.
  • A inadequação do quadro de pessoal torna a contenção necessária.
  • Tenho o dever de proteger os pacientes.
  • Para a pessoa idosa, a contenção não é traumática.
  • Os meios de contenção reduzem a incidência de quedas.
  • É preciso mais pessoal para reduzir a contenção física e farmacológica.

Por que mitos? Porque a evidência disponível — ainda que majoritariamente observacional e de qualidade limitada — não os confirma como justificativas universais. Revisões sistemáticas indicam que a contenção física não reduz quedas nem lesões e que programas de descontenção, conduzidos com método, não aumentam quedas ou fraturas. Quanto ao tamanho da equipe, ele importa — mas a experiência internacional mostra que cultura, formação e método pesam mais do que o simples aumento do quadro. Nada disso significa que a ciência seja unânime ou que o tema seja simples; significa que esses argumentos, sozinhos, não bastam para justificar amarrar uma pessoa.

Os melhores diretores, coordenadores, técnicos, educadores, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e psicólogos costumam reservar um tempo do seu dia ao estudo das melhores práticas e a escrever projetos para construir um futuro melhor — inclusive para poderem, à noite, olhar-se no espelho com o orgulho de terem sido a diferença. Que espaço a sua organização oferece para esse estudo e essa reflexão?

Mais de século e meio depois

Em 1856, o médico John Conolly advertia que, ao se permitir que mãos e pés sejam amarrados, logo se observa no paciente um processo completo de regressão, dando início a toda sorte de negligência e tirania — até que a repressão se torne o substituto habitual da atenção, da paciência, da tolerância e do bom cuidado.

Leio essa frase e sinto uma espécie de náusea interior. Passou-se mais de século e meio, e ela continua atual.

James Norris — chamado “William” pela imprensa — acorrentado por cerca de doze anos em Bethlem (“Bedlam”), Londres. Desenhado do natural por G. Arnald, 1814; o caso tornou-se símbolo da reforma contra a contenção mecânica. Imagem: Wellcome Collection (CC BY).

A voz de quem viveu

Nenhum dado é tão eloquente quanto a voz de quem viveu a contenção. Cary Smith Henderson, professor de história na James Madison University, registrou em áudio sua experiência com a doença de Alzheimer, mais tarde reunida no livro Partial View: An Alzheimer’s Journal. Em uma passagem, ele relembra um hospital universitário onde, tomado de agitação, foi amarrado: descreve o horror, a dor física, os gritos, a sensação de fazer tudo errado — e, sobretudo, o abandono de uma equipe que não se dava ao trabalho de explicar nem de agir com delicadeza. Tratavam-no, diz ele, “apenas como um caso clínico”. Foi, segundo suas palavras, uma das piores noites de sua vida.

O caminho prático: quatro passos para a descontenção

O sonho precisa virar método. No modelo Sente-Mente®, a fisioterapeuta Barbara Carraro sistematiza esse percurso em quatro passos:

  1. Decidir, com honestidade. Dizer “sim, eu quero” — não porque está na missão da instituição, mas porque se acredita em um futuro diferente. Aqui, diretores e coordenadores são os capitães da equipe, e é preciso abandonar os “lastros”: os falsos mitos e as crenças limitantes. “Faço isso para o bem dele” e “não tenho alternativa” são fugas de uma decisão de inovação.
  2. Medir sem culpa. Configurar um “GPS” da instituição: não basta contar quantas pessoas estão contidas; é preciso saber o meio utilizado, por quantas horas ao dia, com que motivação e quando a medida será reavaliada — cruzando esses dados com quedas e fármacos. Taxas altas e estáveis, sem reavaliação, são um sinal de fragilidade organizacional.
  3. Conter com o máximo cuidado, enquanto a meta não é atingida. Da técnica (evitar nós que impeçam a liberação rápida em emergências) à rotina: não faz sentido propor estimulação a quem passou a noite lutando contra as amarras e amanhece sonolento. E o profissional de cuidado não pode ser deixado sozinho — a organização assume a responsabilidade e transforma o que a equipe registra na passagem de plantão em projetos de cuidado reais.
  4. Zerar a contenção “se necessário” (PRN). Se existe contenção “por necessidade”, poderia existir também a “liberdade por necessidade”? Psicofármacos têm indicações legítimas na demência — por exemplo, em quadros de agitação grave com risco, quando as abordagens não farmacológicas já foram tentadas. O que precisamos combater não é o medicamento em si, mas o seu uso indiscriminado e crônico, fora de um plano terapêutico, como substituto do cuidado. Do mesmo modo, contenções pontuais sem projeto costumam denunciar não a má-fé da equipe, mas a falta de ferramentas para ler e acolher os comportamentos especiais da demência — manifestações que pedem interpretação, e não apenas supressão. Sem uma equipe interprofissional à mesa para analisar os efeitos de cada medida, qualquer descontenção será apenas uma “bolha de sabão” que estoura em poucos dias.

Um convite

Pergunte-se: quantos idosos contidos há na sua instituição? Quantos projetos de assistência você está construindo para libertá-los? Quanto investiu na formação da sua equipe? Enquanto, na mente dos profissionais e na cultura da organização, sobreviverem os mitos da contenção, não caminharemos rumo à liberdade interior e à beleza do gesto de cuidar.

Talvez, depois da Covid e de todo o seu peso, este possa ser o primeiro grande projeto concreto de regeneração e renascimento a empreender juntos. Porque, quando o porquê é forte, o como sempre se encontra.

E o “como” quase nunca se encontra sozinho: encontra-se junto, ombro a ombro com quem vive a mesma realidade por dentro. É esse o espírito do MPC Brasil 2026 — o Meeting dos Profissionais de Cuidar —, que, depois de doze anos na Itália, chega ao país em sua primeira edição com um lema que sintetiza o espírito destas páginas: “Não corpos, pessoas.” Entre mais de trinta e cinco especialistas e dezesseis oficinas — de “Do Corpo à Pessoa: gestão centrada no residente” a “O cuidado em Movimento é contagiante” —, é um convite a sair não com mais um protocolo na gaveta, mas com ferramentas concretas, referências e a coragem de decidir diferente. Porque a liberdade, como o cuidado, não se constrói na solidão da gestão: constrói-se em rede.

MPC Brasil 2026 · Meeting dos Profissionais de Cuidar

1 e 2 de outubro de 2026 — São José do Rio Preto (SP). Dois dias de imersão, com mais de 35 especialistas, 16 oficinas, 4 plenárias e certificado de 12 horas. Programação completa e inscrições em revistacuidar.com.br/mpc.

About the Author: Editorial Revista Cuidar

Edição Internacional - Artigos de autores internacionais com direitos autorais autorizados exclusivamente para a Revista Cuidar em parceria.

O que você achou do artigo? Deixe um comentário!

🌱 Vamos espalhar o CUIDAR. Compartilhe nas suas redes sociais

Em evidência

Eventos e cultura

O que você achou do artigo? Deixe um comentário!