Em boa parte do Brasil, o inverno chegou com força. No Sul e Sudeste, as madrugadas gelam, o ar seca, e as manhãs de junho e julho pedem cobertor grosso e meias quentes. Para as equipes que trabalham nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), essa virada de estação é muito mais do que uma questão climática: é um desafio de cuidado que exige atenção, criatividade e presença.

Quem cuida de pessoas com demência sabe bem: basta pouco para mudar o equilíbrio de um dia. Uma corrente de ar frio que entra pela janela aberta, uma roupa úmida que não foi trocada a tempo, uma noite mal dormida por causa do frio, e toda a rotina pode se desestabilizar. O frio não afeta apenas o corpo. Ele influencia o humor, o sono, a disposição e a forma como a pessoa percebe o ambiente.

Este artigo é um convite para pensar o inverno não como obstáculo, mas como um tempo rico em possibilidades de cuidado: aquecido por gestos simples, presença atenta e pequenos rituais que fazem bem para o corpo e para a alma.


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O frio e a demência: por que a atenção precisa ser redobrada

A pessoa que vive com demência muitas vezes tem dificuldade em perceber e comunicar a sensação de frio. Pode não pedir uma blusa a mais. Pode não associar o calafrio ao fato de estar com frio. Em alguns casos, pode resistir ao agasalho porque não compreende o gesto de quem o oferece.

Por isso, cabe à equipe de cuidado observar os sinais do corpo: mãos e pés frios, tremores, pele ressecada, lábios arroxeados, agitação incomum ou sonolência fora do habitual podem indicar desconforto térmico e necessidade de intervenção.

Nas ILPI, a atenção ao ambiente é fundamental. De modo geral, ambientes entre cerca de 20 e 22°C costumam proporcionar conforto térmico para a maioria das pessoas idosas, sempre respeitando as condições clínicas, a sensação térmica de cada residente e as características da instituição. Tanto o frio excessivo quanto o superaquecimento podem trazer prejuízos.

O ar seco do inverno, especialmente em diversas regiões do país, favorece o ressecamento das vias respiratórias. Quando necessário, umidificadores ou recipientes com água podem ajudar, desde que sejam mantidos limpos e higienizados regularmente. Aromas familiares presentes em preparações culinárias, como laranja, canela ou ervas, também podem tornar o ambiente mais acolhedor e despertar lembranças afetivas.

Mesmo nos dias frios, é importante renovar o ar dos ambientes. Abrir as janelas por alguns minutos nos horários mais quentes do dia ajuda a reduzir a circulação de vírus e outros microrganismos em espaços fechados.

Além disso, o inverno costuma coincidir com maior circulação de vírus respiratórios. Manter a vacinação dos residentes e dos profissionais atualizada, especialmente contra influenza e COVID-19, juntamente com a higiene das mãos e a etiqueta respiratória, contribui para reduzir o risco de surtos dentro das ILPI.

Vestir com cuidado é cuidar

A escolha da roupa no inverno merece atenção especial. Tecidos naturais, como algodão e lã leve, costumam proporcionar conforto térmico sem favorecer suor excessivo. Para facilitar a autonomia e o processo de vestir, prefira roupas com elástico, fechamentos simples e modelagem confortável, permitindo liberdade de movimentos.

As extremidades merecem cuidado especial. Pés e mãos são os primeiros a esfriar e, muitas vezes, os últimos a aquecer. Meias quentes, pantufas com solado antiderrapante e um casaco leve para uso dentro da instituição aumentam o conforto e ajudam na prevenção de quedas. O frio pode favorecer maior rigidez muscular e articular, reduzir a confiança para caminhar e aumentar a instabilidade postural, especialmente ao despertar.

Ao vestir o residente, respeite sempre seu ritmo e sua história. Muitas pessoas preservam preferências de cores, tecidos e estilos mesmo nas fases mais avançadas da demência. Reconhecer essas escolhas é também uma forma de preservar sua identidade.

O movimento que aquece por dentro

O frio naturalmente convida ao repouso, mas o sedentarismo prolongado favorece piora da circulação, aumento da rigidez muscular e articular, redução da mobilidade e queda do humor.

Nas ILPI, o inverno pode ser uma oportunidade para reinventar o movimento dentro dos espaços cobertos. Não se trata de improvisar academias, mas de encontrar movimentos significativos no cotidiano: dobrar toalhas ao ritmo de uma música, regar plantas, participar da preparação de uma receita simples ou realizar rodas de movimento sentados.

Bater palmas, levantar-se e sentar-se com apoio algumas vezes, alongar os braços e movimentar os tornozelos são exercícios simples que estimulam a circulação, produzem aquecimento corporal e favorecem a sensação de bem-estar.

Se houver pátio ensolarado ou jardim protegido do vento, os horários mais quentes do dia são excelentes para pequenas caminhadas. A exposição à luz solar, quando possível e realizada com segurança, contribui para a regulação do ritmo circadiano, melhora o humor e pode favorecer a síntese de vitamina D, embora muitos idosos institucionalizados necessitem de avaliação médica quanto à suplementação. Caminhar de mãos dadas ou apoiado no braço do cuidador é, ao mesmo tempo, movimento e vínculo.

Alimentação e hidratação: o calor que nutre

Nos dias frios, refeições quentes e nutritivas tornam-se ainda mais importantes para manter conforto, aporte energético adequado e bem-estar.

Sopas e caldos preparados com legumes variados, feijão, lentilha ou grão-de-bico, além de proteínas como frango ou carne bovina, constituem refeições completas, saborosas e de fácil deglutição para muitos residentes.

Frutas cozidas, como banana aquecida com canela ou maçã assada, oferecem boa densidade nutricional e aromas que frequentemente despertam memórias afetivas ligadas à cozinha da família e à convivência.

Um ponto que merece atenção especial é a hidratação. No inverno, a sensação de sede costuma diminuir, mas a necessidade de líquidos permanece. Oferecer água e outras bebidas ao longo do dia é essencial. Chás e infusões mornas, como camomila, erva-cidreira ou hortelã, podem ser boas opções, desde que não existam contraindicações clínicas ou interações medicamentosas. Mais do que hidratar, esses momentos podem transformar-se em pequenos rituais de convivência, como um agradável “chá da tarde” entre residentes e equipe. 

Para residentes com disfagia ou restrição hídrica, a consistência dos líquidos e os volumes ofertados devem sempre seguir a orientação do fonoaudiólogo, do nutricionista e da equipe assistencial.

(Dica: o livro Hygge, o segredo dinamarquês para a felicidade, pode trazer muitas inspirações).

O sono: noite bem cuidada como prevenção

O inverno modifica o padrão de sono de muitas pessoas. As noites mais longas favorecem o recolhimento, mas o frio também pode provocar despertares frequentes, desconforto e dificuldade para voltar a dormir.

Mantas leves, meias confortáveis para dormir e uma iluminação noturna discreta ajudam tanto na qualidade do sono quanto na prevenção de quedas para aqueles que costumam levantar durante a noite.

Também é importante evitar excesso de cobertas ou aquecimento exagerado, que podem causar desconforto, transpiração excessiva e interrupções do sono.

Rituais de preparação para dormir têm importante valor terapêutico para pessoas com demência. Uma música tranquila, uma massagem nas mãos com creme hidratante, um chá morno quando permitido e uma conversa acolhedora ajudam o cérebro a reconhecer que o momento de descanso está chegando. A repetição desses rituais oferece previsibilidade, elemento essencial para promover segurança emocional.

O cuidador também precisa de calor

Nenhum artigo sobre cuidado no inverno estaria completo sem falar de quem cuida. As equipes das ILPI enfrentam o frio junto com os residentes e convivem diariamente com demandas físicas e emocionais intensas.

Cuidar de si é condição fundamental para cuidar bem do outro. Isso inclui manter boa hidratação, fazer pausas sempre que possível, alimentar-se adequadamente e compartilhar dificuldades com a equipe.

O inverno pode ser também uma oportunidade para fortalecer o cuidado entre os próprios profissionais. Uma roda de conversa, um café compartilhado ou uma palavra de reconhecimento entre colegas ajudam a construir ambientes mais acolhedores. Equipes que se sentem cuidadas tendem a oferecer um cuidado mais atento, humano e compassivo.

Uma melodia para cada dia de inverno

A rotina da ILPI durante o inverno pode ser pensada como uma melodia. Pela manhã, a luz natural, o movimento e a conexão ajudam a despertar o corpo e a mente. A tarde favorece atividades mais tranquilas, música, trabalhos manuais, conversas e momentos ao sol sempre que possível. A noite convida ao silêncio, ao conforto térmico e aos rituais que anunciam o descanso.

Essa alternância respeita o ritmo biológico da pessoa com demência e cria previsibilidade, uma das formas mais concretas de oferecer segurança para quem vive com alterações cognitivas.

O inverno nas ILPI não precisa ser um período de isolamento. Pode ser um tempo de aromas familiares, cobertores macios, músicas antigas, bebidas quentes e mãos que acolhem com delicadeza. Um tempo em que o calor produzido pelo cuidado bem realizado aquece muito mais do que qualquer aquecedor.

Que este inverno seja vivido com presença, criatividade e ternura: dentro e fora dos quartos das nossas ILPI.

Tem alguma dica? Escreva aqui nos comentários. 

About the Author: Aline Salla

CEO e Diretora Editorial da Revista Cuidar · Italo-brasileira. Co-fundadora da Frente-ILPI (2020). Ponte entre os sistemas de cuidado do Brasil e da Itália.

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