Cinco questões que o país precisa enfrentar para construir uma rede de cuidados de longa duração mais humana, qualificada e preparada para o futuro

O envelhecimento costuma ser percebido como uma questão distante, até o dia em que chega à própria família.

É nesse momento que muitas pessoas descobrem duas coisas ao mesmo tempo. Não sabem onde buscar apoio para cuidar de um familiar que precisa de mais suporte no dia a dia e ainda carregam uma visão preconcebida sobre as Instituições de Longa Permanência para Idosos, as ILPIs.

Durante muito tempo, a palavra “asilo” esteve associada ao abandono, à pobreza e à perda de vínculos familiares. Essa visão não desapareceu completamente. Ainda hoje, muitas famílias chegam às ILPIs em meio à culpa, à urgência e à falta de informação.

Mas o Brasil está envelhecendo. E já não é possível tratar o cuidado de longa duração como uma questão que diz respeito apenas a algumas famílias.

O Censo Demográfico 2022 mostrou que 161 mil pessoas viviam em domicílios classificados pelo IBGE como “asilo ou outra instituição de longa permanência para idosos” (número provavelmente subestimado — é a fonte oficial mais confiável disponível, mas os dados são de 2022). As mulheres representavam 59,8% desse grupo. IBGE, Censo 2022

São pessoas com histórias, famílias, vínculos, preferências e diferentes necessidades de cuidado.

As ILPIs já fazem parte da realidade brasileira. O que ainda falta é espaço para uma discussão nacional mais madura e plural, conduzida por profissionais com um olhar holístico sobre o papel que elas devem desempenhar numa sociedade que envelhece — sem aceitar retrocessos movidos por lógicas mercantilistas que sacrificam a qualidade do cuidado a quem vive em situação de fragilidade.

A invisibilidade tem gênero e também tem identidade

O primeiro dado que chama atenção é o perfil feminino dos moradores de ILPI. No Censo 2022, as mulheres representavam 59,8% das pessoas que viviam em asilos ou instituições de longa permanência para idosos. IBGE, Censo 2022

Essa predominância está relacionada, entre outros fatores, à maior longevidade feminina e às diferentes condições de saúde, renda, viuvez e redes de apoio que acompanham o envelhecimento.

Existe, porém, outra camada de invisibilidade que precisa ser discutida: a das pessoas idosas LGBTQIA+.

A literatura brasileira tem chamado atenção para as particularidades desse grupo. O estudo publicado pelo Sesc São Paulo sobre velhices LGBTQIA+ em ILPIs aponta que algumas pessoas podem voltar a esconder sua orientação sexual ou identidade de gênero ao passar a morar em uma ILPI, por receio de discriminação, apagamento de sua identidade ou rompimento de vínculos afetivos. Sesc São Paulo, Reflexões sobre velhices LGBTQIA+ em ILPIs

Isso nos leva a uma pergunta importante:

uma ILPI está preparada para cuidar da pessoa que mora ali ou está olhando apenas para a condição clínica que ela apresenta?

Uma pessoa idosa não deixa sua história na porta da ILPI.

Ela chega com seu nome, suas lembranças, seus afetos, sua profissão, suas crenças, sua sexualidade, seus gostos, suas perdas e seus desejos.

Quando essas dimensões são ignoradas, o cuidado pode até estar organizado do ponto de vista operacional, mas deixa de considerar aquilo que torna aquela pessoa única.

Retirar as ILPIs da margem do debate social significa reconhecer que não existe política de cuidado de longa duração de qualidade quando determinadas velhices permanecem invisíveis.

Também significa abandonar a ideia de que uma ILPI é simplesmente um lugar para onde alguém vai quando já não consegue viver sozinho.

O objetivo deve ser outro: construir espaços de moradia, convivência, proteção e cuidado nos quais cada morador continue sendo reconhecido como sujeito de direitos.

O paradoxo da moradia assistida

Existe uma característica das ILPIs que precisa ser compreendida sem simplificações.

ILPI não é hospital. (Essa afirmação precisa ser sempre esclarecida com responsabilidade – ela não pode servir de justificativa para reduzir ou negligenciar o suporte de saúde que os moradores de fato precisam.)

A Anvisa define as ILPIs como instituições de caráter residencial destinadas ao domicílio coletivo de pessoas com 60 anos ou mais, com ou sem suporte familiar, em condições de liberdade, dignidade e cidadania. A RDC nº 502/2021 é a referência sanitária federal para o funcionamento dessas instituições. Anvisa, Instituições de Longa Permanência para Idosos

Isso não significa que o cuidado oferecido seja simples.

À medida que os moradores envelhecem, podem estar presentes doenças crônicas, fragilidade, alterações cognitivas, limitações funcionais, polifarmácia e diferentes necessidades de apoio para as atividades da vida diária.

Surge então um dos grandes desafios do cuidado de longa duração.

A pessoa mora em uma residência, mas pode apresentar necessidades de cuidado bastante complexas.

A própria Anvisa estabelece a necessidade de um responsável técnico para as ILPIs. Quando a instituição oferece serviços de saúde de forma contínua, esse responsável deve ser um profissional de saúde legalmente habilitado. Estados e municípios também podem estabelecer normas complementares. Anvisa, Recursos Humanos das ILPIs

A própria regulamentação reconhece, portanto, a natureza residencial das ILPIs e, ao mesmo tempo, a necessidade de organização adequada quando existem serviços de saúde envolvidos.

O desafio não está simplesmente em definir se uma ILPI é residência ou serviço de saúde.

A questão é saber como articular moradia e cuidado sem transformar a ILPI em hospital e sem tratar uma residência coletiva como se as necessidades de saúde fossem secundárias.

É nesse ponto que aparecem alguns dos principais dilemas do setor.

Uma pesquisa qualitativa de Janine Melo de Oliveira e Célia Alves Rozendo, publicada na Revista Brasileira de Enfermagem, ouviu 13 pessoas idosas que moravam em uma ILPI filantrópica e encontrou justamente essa ambiguidade na experiência de viver na instituição. O estudo mostra a ILPI como espaço de cuidado, mas também como lugar em que a autonomia pode ser restringida. Revista Brasileira de Enfermagem, Oliveira e Rozendo

A ILPI pode acolher.

Pode proteger.

Pode oferecer segurança, convivência e cuidado.

Mas também pode reproduzir rotinas rígidas, limitar escolhas e fazer com que a pessoa passe a se adaptar mais à instituição do que a instituição à pessoa.

A diferença está na concepção de cuidado.

A ciência do cuidado: prevenir é investir

Cuidar de uma pessoa idosa que mora em ILPI não é uma atividade baseada apenas em boa vontade.

É uma prática que exige conhecimento, planejamento, avaliação, monitoramento e trabalho em equipe.

Isso fica evidente quando falamos de quedas, alterações nutricionais, desidratação, problemas relacionados a medicamentos, perda funcional, infecções e lesões por pressão.

Nenhum desses problemas pode ser explicado por uma única causa. São situações que envolvem fatores clínicos, funcionais, ambientais e sociais.

Quanto mais complexo é o perfil dos moradores, maior é a necessidade de profissionais preparados e de processos de cuidado bem estruturados.

A valorização da equipe que atua na ILPI é parte desse processo. Enfermagem, medicina, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, nutrição, psicologia, serviço social e outras áreas podem ter papéis importantes, de acordo com as necessidades de cada morador e com a organização dos serviços oferecidos.

Mas há uma questão que precisa ser enfrentada com mais clareza.

Saúde e assistência social não podem cuidar da mesma pessoa como se fossem mundos separados.

A vida cotidiana de um morador de ILPI não se divide entre “necessidades de saúde” e “necessidades sociais”. Uma queda pode ter relação com uma condição clínica, mas também com o ambiente. Uma perda de peso pode envolver uma doença, mas também a alimentação, o prazer de comer e a própria rotina. O isolamento pode estar relacionado à saúde mental, mas também à falta de vínculos e de oportunidades de convivência.

O cuidado acontece no encontro dessas dimensões.

Para que isso seja possível, é necessário fortalecer a articulação entre saúde, assistência social e políticas de cuidado, com responsabilidades e formas de financiamento que considerem a realidade das ILPIs.

A prevenção também é uma questão de gestão e de uso responsável dos recursos públicos. Segundo dados do Ministério da Saúde (SIGTAP/DATASUS), o valor médio de uma internação hospitalar de perfil clínico gira em torno de R$ 1.311 por autorização, subindo para cerca de R$ 3.330 quando a internação é classificada como de reabilitação ou cuidados crônicos — categoria mais próxima do perfil de quem vive com fragilidades importantes numa ILPI. Ministério da Saúde/RIPSA Evitar complicações que podem ser prevenidas reduz, portanto, a necessidade de atendimentos de urgência, internações e outros procedimentos de maior complexidade — com impacto direto sobre o gasto público. Mais importante ainda, evita que a pessoa idosa enfrente sofrimento, perda funcional e mudanças bruscas em sua rotina.

Prevenir não significa apenas gastar menos.

Significa cuidar melhor.

O direito a um cuidado de qualidade não pode depender da capacidade isolada de cada ILPI de resolver sozinha problemas que envolvem diferentes políticas públicas.

E não existe cuidado centrado na pessoa sem profissionais valorizados, preparados e sustentados por condições adequadas de trabalho.

O direito ao cuidado começa pelo direito de continuar sendo quem se é

Uma das mudanças mais importantes que as ILPIs podem fazer não está necessariamente na estrutura física.

Está na forma como cada morador é enxergado.

O cuidado individualizado começa pelo conhecimento da pessoa.

O Plano Individual de Atendimento, conhecido como PIA, é utilizado em diferentes contextos da assistência social e aparece também em orientações e instrumentos voltados às ILPIs. Em material técnico do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção ao Idoso do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (CAO Idoso/MPRJ) sobre o direito à autonomia da pessoa idosa acolhida, o PIA aparece como instrumento para registrar história de vida, preferências, vínculos, necessidades e estratégias de atendimento de cada pessoa. MPRJ, A efetividade do direito à autonomia da pessoa idosa acolhida em ILPI

Quando bem construído, o PIA não deveria ser apenas mais um documento.

Ele deveria ajudar a responder perguntas simples.

Quem é essa pessoa?

Do que ela gosta?

O que deseja preservar?

Quais vínculos considera importantes?

Que atividades lhe dão prazer?

Quais são suas crenças?

Como prefere ser chamada?

O que ainda gostaria de aprender?

O que gostaria de continuar fazendo sozinha?

Essas perguntas têm consequências práticas.

Morar em uma ILPI pode fazer com que a pessoa passe a viver de acordo com os horários e regras da instituição. Aos poucos, aquilo que é mais conveniente para a rotina coletiva pode se tornar mais importante do que aquilo que é significativo para cada morador.

O cuidado centrado na pessoa propõe outro caminho. A pessoa idosa deve participar, dentro de suas possibilidades, das decisões relacionadas à própria vida e ao próprio cuidado.

Cuidar não significa apenas fazer por alguém.

Também significa fazer com alguém.

É possível ajudar uma pessoa no banho sem decidir por ela como deve viver.

É possível administrar medicamentos sem infantilizá-la.

É possível garantir segurança sem retirar toda a autonomia.

É possível proteger sem controlar cada escolha.

Erving Goffman utilizou o conceito de “instituição total” para analisar ambientes nos quais diferentes dimensões da vida são organizadas dentro de uma mesma estrutura institucional.

As ILPIs não devem ser automaticamente classificadas dessa maneira. O conceito, porém, ajuda a pensar um risco que precisa ser evitado: o de a instituição ocupar todos os espaços da vida da pessoa, fazendo com que seus horários, regras e necessidades administrativas determinem sua existência.

Uma boa ILPI precisa organizar o cuidado sem apagar a história de quem mora ali.

O residente não é apenas alguém que precisa de ajuda. É alguém que continua tendo uma vida para viver.

O futuro já começou

O Brasil não está apenas envelhecendo.

Está envelhecendo rapidamente.

As projeções populacionais mais recentes do IBGE, divulgadas na revisão de 2024, consideram informações dos Censos de 2000, 2010 e 2022, além de registros de nascimentos, óbitos e outros dados demográficos. A projeção contempla a população brasileira até 2070. IBGE, Projeções da População 2000-2070

Entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais praticamente dobrou, passando de 8,7% para 15,6% da população brasileira. Na projeção mais recente, o IBGE estima que essa participação chegará a 37,8% em 2070. IBGE, Projeções e estimativas de população

Esses números mudam a dimensão da conversa.

O debate sobre ILPIs não pode continuar restrito ao momento em que uma família entra em crise.

Precisamos pensar em uma rede brasileira de cuidados de longa duração.

Isso inclui ILPIs, mas não apenas ILPIs.

Inclui atenção domiciliar, centros-dia, moradias assistidas, apoio às famílias cuidadoras, serviços comunitários, formação profissional, financiamento, regulação, prevenção da perda de autonomia e integração entre saúde, assistência social e políticas de cuidado.

A ILPI é uma das respostas possíveis dentro desse sistema.

E continuará sendo necessária.

Mas não podemos imaginar que ampliar o número de vagas, por si só, resolverá o problema.

A pergunta não é apenas:

quantas vagas teremos?

É:

que tipo de vida essas vagas serão capazes de oferecer?

O Brasil precisa decidir que envelhecimento quer construir

Talvez seja necessário começar por uma mudança simples de linguagem.

Morar em uma ILPI não deveria ser tratado automaticamente como sinônimo de abandono, fracasso familiar ou ausência de vínculos.

Para algumas pessoas, morar em uma ILPI pode significar proteção, convivência, acesso ao cuidado, segurança e continuidade da vida social.

O problema não é a existência das ILPIs.

O problema é quando a sociedade aceita que uma pessoa idosa precise abrir mão da dignidade para receber cuidado.

O problema é quando uma família só descobre as ILPIs no momento da emergência.

O problema é quando profissionais responsáveis por cuidados complexos são tratados como mão de obra invisível.

O problema é quando financiamento e qualidade são colocados em lados opostos.

O problema é quando autonomia é confundida com risco e proteção é confundida com controle.

O problema é quando uma pessoa deixa de ser percebida como sujeito porque passou a precisar de ajuda.

Por isso, discutir ILPI é discutir muito mais do que instituições.

É discutir o valor que damos à velhice.

É discutir quem cuida de quem cuida.

É discutir o papel do Estado, das famílias, do mercado e da sociedade.

É discutir trabalho, ciência, direitos, arquitetura, tecnologia, vínculos, sexualidade, espiritualidade e participação social.

É discutir, principalmente, que tipo de sociedade queremos construir quando o cuidado passar a fazer parte da história de todos nós.

Existe uma pergunta que deveria acompanhar cada decisão tomada hoje sobre uma ILPI:

Estamos construindo as instituições nas quais aceitaríamos viver amanhã?

Talvez essa seja a pergunta mais importante.

Não porque todos nós iremos morar em uma ILPI.

Mas porque todos nós, em algum momento, poderemos precisar de cuidado.

E o futuro do cuidado começa muito antes de precisarmos dele.

Se não NÓS, quem?

Esperamos por vocês no MPC Brasil 2026, no dia 01 e 02 de outubro.

Corra que as inscrições se encerram dia 10 de setembro de 2026.

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