Por: Luiz Assunção – Farmacêutico Clínico – CRF-SP 23.110 | RQE 12595-47 – Especialista em Polifarmácia e Longevidade


Em muitas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), partir ou triturar comprimidos tornou-se uma prática rotineira. Na maioria das vezes, essa decisão é tomada com a melhor das intenções: facilitar a administração do medicamento para pessoas que apresentam dificuldade para engolir, alterações neurológicas, disfagia ou dependência de cuidadores.

Embora pareça um procedimento simples, modificar a forma farmacêutica de um medicamento pode comprometer a eficácia do tratamento e aumentar o risco de efeitos indesejados. Em alguns casos, um comprimido triturado pode deixar de agir como deveria; em outros, pode liberar todo o medicamento de uma só vez, provocando reações inesperadas.

Por isso, compreender que o medicamento é muito mais do que seu princípio ativo é um passo fundamental para promover um cuidado seguro, especialmente entre pessoas idosas.

A tecnologia por trás de cada comprimido

Quando um laboratório desenvolve um medicamento, ele não define apenas qual substância será utilizada. A forma farmacêutica também é cuidadosamente planejada. O tamanho do comprimido, seu revestimento, sua composição e a velocidade com que libera o princípio ativo são resultados de estudos que buscam garantir eficácia, segurança e conforto ao paciente.

Existem medicamentos formulados para liberar o princípio ativo lentamente ao longo de várias horas. Outros possuem revestimentos que protegem o medicamento da acidez do estômago ou evitam irritação da mucosa gástrica. Há ainda apresentações que foram desenvolvidas para que a absorção aconteça apenas em determinada região do intestino.

Quando um comprimido é partido ou triturado sem orientação adequada, toda essa tecnologia pode ser perdida.

Quando triturar comprimidos se torna um risco

Entre os exemplos mais conhecidos estão os medicamentos identificados pelas siglas LP (Liberação Prolongada), XR (Extended Release), ER (Extended Release), SR (Sustained Release), CR (Controlled Release) e LA (Long Acting). Esses medicamentos foram desenvolvidos para liberar o princípio ativo gradualmente.

Ao triturá-los, o paciente pode receber praticamente toda a dose em pouco tempo, aumentando o risco de efeitos adversos e reduzindo a duração esperada do tratamento. Em vez de um efeito contínuo durante o dia, ocorre um pico de concentração seguido por uma queda precoce da ação do medicamento.

Também merecem atenção especial os comprimidos gastrorresistentes, revestidos e muitas drágeas. Nesses casos, o revestimento não existe apenas para melhorar a aparência ou facilitar a ingestão. Frequentemente ele faz parte do próprio mecanismo de funcionamento do medicamento, protegendo o princípio ativo da acidez gástrica ou protegendo o estômago da ação irritante de determinados fármacos.

Isso significa que nenhum comprimido pode ser partido?

Não. Existem medicamentos que possuem sulco e podem ser divididos com segurança quando essa prática é prevista pelo fabricante ou orientada por um profissional de saúde. O importante é entender que essa decisão não deve ser baseada apenas na aparência do comprimido, mas nas características da formulação.

Polifarmácia e fragilidade: o risco redobrado nas ILPIs

Nas ILPIs, esse cuidado torna-se ainda mais relevante.

É comum que os residentes utilizem diversos medicamentos simultaneamente, situação conhecida como polifarmácia. Além disso, alterações fisiológicas do envelhecimento, doenças neurológicas, perda da força muscular e dificuldades de deglutição aumentam a complexidade da administração dos medicamentos.

Nesses cenários, improvisações podem trazer consequências importantes. Um medicamento administrado de forma inadequada pode perder sua eficácia, aumentar o risco de reações adversas e até contribuir para internações evitáveis.

Quando um residente apresenta dificuldade para engolir comprimidos, a solução não deve ser simplesmente triturá-los. O mais adequado é avaliar, juntamente com o farmacêutico e o médico, se existe outra apresentação farmacêutica disponível, como soluções orais, suspensões, gotas, comprimidos dispersíveis, comprimidos orodispersíveis ou outra alternativa terapêutica que preserve a segurança do tratamento.

Essa avaliação individualizada faz parte do uso inteligente dos medicamentos e representa uma importante estratégia para reduzir riscos, especialmente entre pessoas idosas mais frágeis.

O papel do farmacêutico clínico

O farmacêutico clínico desempenha um papel fundamental nesse processo. É esse profissional que possui formação específica para avaliar a farmacoterapia, identificar medicamentos que não devem ser manipulados dessa forma, orientar cuidadores e equipes de enfermagem e contribuir para que cada medicamento seja administrado da maneira correta.

Mais do que distribuir medicamentos, o cuidado farmacêutico busca garantir que eles cumpram seu objetivo terapêutico com o máximo de segurança. Pequenos detalhes na administração podem produzir grandes diferenças nos resultados clínicos.

Na rotina das ILPIs, onde cada cuidado influencia diretamente a qualidade de vida dos residentes, respeitar a forma farmacêutica é uma demonstração de responsabilidade, conhecimento técnico e compromisso com a segurança do paciente.

Afinal, o medicamento não é apenas o princípio ativo. A forma farmacêutica também faz parte do tratamento.

Promover o uso inteligente dos medicamentos significa compreender que cada etapa da farmacoterapia importa. Desde a prescrição até a forma correta de administrar cada dose, todos os detalhes contribuem para preservar a autonomia, reduzir riscos e oferecer um cuidado mais seguro e humanizado às pessoas idosas.

Perguntas para levar à reunião da equipe

Depois de conhecer esses cuidados, o convite é olhar para a própria rotina. Antes da próxima reunião, vale reunir a equipe e refletir, juntos, sobre as seguintes perguntas:

  1. Temos, hoje, residentes que utilizam medicamentos partidos ou triturados?
  2. Sabemos identificar quais desses medicamentos são de liberação prolongada (LP, XR, ER, SR, CR, LA) ou possuem revestimento especial?
  3. Como esses comprimidos estão sendo partidos ou triturados no dia a dia? Existe um procedimento padronizado pela equipe, ou cada cuidador faz de um jeito?
  4. Ao adquirir o medicamento, informamos ao fornecedor ou à farmácia que ele poderá ser partido ou triturado?
  5. Antes de partir ou triturar, a equipe consulta o farmacêutico clínico para confirmar se aquele comprimido foi projetado pelo fabricante para ser dividido (com sulco) ou triturado?
  6. Já avaliamos, com o farmacêutico e o médico, se existe uma apresentação alternativa (gotas, solução oral, comprimido dispersível) para os residentes com dificuldade de engolir?

Essas respostas podem revelar oportunidades importantes de melhoria. É esse olhar atento, feito em equipe, que transforma informação técnica em cuidado seguro para cada residente.

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Em muitas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), partir ou triturar comprimidos tornou-se uma prática rotineira. Na maioria das vezes, essa decisão é tomada com a melhor das intenções: facilitar a administração do medicamento para pessoas que apresentam dificuldade para engolir, alterações neurológicas, disfagia ou dependência de cuidadores.

Embora pareça um procedimento simples, modificar a forma farmacêutica de um medicamento pode comprometer a eficácia do tratamento e aumentar o risco de efeitos indesejados. Em alguns casos, um comprimido triturado pode deixar de agir como deveria; em outros, pode liberar todo o medicamento de uma só vez, provocando reações inesperadas.

Por isso, compreender que o medicamento é muito mais do que seu princípio ativo é um passo fundamental para promover um cuidado seguro, especialmente entre pessoas idosas.

A tecnologia por trás de cada comprimido

Quando um laboratório desenvolve um medicamento, ele não define apenas qual substância será utilizada. A forma farmacêutica também é cuidadosamente planejada. O tamanho do comprimido, seu revestimento, sua composição e a velocidade com que libera o princípio ativo são resultados de estudos que buscam garantir eficácia, segurança e conforto ao paciente.

Existem medicamentos formulados para liberar o princípio ativo lentamente ao longo de várias horas. Outros possuem revestimentos que protegem o medicamento da acidez do estômago ou evitam irritação da mucosa gástrica. Há ainda apresentações que foram desenvolvidas para que a absorção aconteça apenas em determinada região do intestino.

Quando um comprimido é partido ou triturado sem orientação adequada, toda essa tecnologia pode ser perdida.

Quando triturar comprimidos se torna um risco

Entre os exemplos mais conhecidos estão os medicamentos identificados pelas siglas LP (Liberação Prolongada), XR (Extended Release), ER (Extended Release), SR (Sustained Release), CR (Controlled Release) e LA (Long Acting). Esses medicamentos foram desenvolvidos para liberar o princípio ativo gradualmente.

Ao triturá-los, o paciente pode receber praticamente toda a dose em pouco tempo, aumentando o risco de efeitos adversos e reduzindo a duração esperada do tratamento. Em vez de um efeito contínuo durante o dia, ocorre um pico de concentração seguido por uma queda precoce da ação do medicamento.

Também merecem atenção especial os comprimidos gastrorresistentes, revestidos e muitas drágeas. Nesses casos, o revestimento não existe apenas para melhorar a aparência ou facilitar a ingestão. Frequentemente ele faz parte do próprio mecanismo de funcionamento do medicamento, protegendo o princípio ativo da acidez gástrica ou protegendo o estômago da ação irritante de determinados fármacos.

Isso significa que nenhum comprimido pode ser partido?

Não. Existem medicamentos que possuem sulco e podem ser divididos com segurança quando essa prática é prevista pelo fabricante ou orientada por um profissional de saúde. O importante é entender que essa decisão não deve ser baseada apenas na aparência do comprimido, mas nas características da formulação.

Polifarmácia e fragilidade: o risco redobrado nas ILPIs

Nas ILPIs, esse cuidado torna-se ainda mais relevante.

É comum que os residentes utilizem diversos medicamentos simultaneamente, situação conhecida como polifarmácia. Além disso, alterações fisiológicas do envelhecimento, doenças neurológicas, perda da força muscular e dificuldades de deglutição aumentam a complexidade da administração dos medicamentos.

Nesses cenários, improvisações podem trazer consequências importantes. Um medicamento administrado de forma inadequada pode perder sua eficácia, aumentar o risco de reações adversas e até contribuir para internações evitáveis.

Quando um residente apresenta dificuldade para engolir comprimidos, a solução não deve ser simplesmente triturá-los. O mais adequado é avaliar, juntamente com o farmacêutico e o médico, se existe outra apresentação farmacêutica disponível, como soluções orais, suspensões, gotas, comprimidos dispersíveis, comprimidos orodispersíveis ou outra alternativa terapêutica que preserve a segurança do tratamento.

Essa avaliação individualizada faz parte do uso inteligente dos medicamentos e representa uma importante estratégia para reduzir riscos, especialmente entre pessoas idosas mais frágeis.

O papel do farmacêutico clínico

O farmacêutico clínico desempenha um papel fundamental nesse processo. É esse profissional que possui formação específica para avaliar a farmacoterapia, identificar medicamentos que não devem ser manipulados dessa forma, orientar cuidadores e equipes de enfermagem e contribuir para que cada medicamento seja administrado da maneira correta.

Mais do que distribuir medicamentos, o cuidado farmacêutico busca garantir que eles cumpram seu objetivo terapêutico com o máximo de segurança. Pequenos detalhes na administração podem produzir grandes diferenças nos resultados clínicos.

Na rotina das ILPIs, onde cada cuidado influencia diretamente a qualidade de vida dos residentes, respeitar a forma farmacêutica é uma demonstração de responsabilidade, conhecimento técnico e compromisso com a segurança do paciente.

Afinal, o medicamento não é apenas o princípio ativo. A forma farmacêutica também faz parte do tratamento.

Promover o uso inteligente dos medicamentos significa compreender que cada etapa da farmacoterapia importa. Desde a prescrição até a forma correta de administrar cada dose, todos os detalhes contribuem para preservar a autonomia, reduzir riscos e oferecer um cuidado mais seguro e humanizado às pessoas idosas.

Perguntas para levar à reunião da equipe

Depois de conhecer esses cuidados, o convite é olhar para a própria rotina. Antes da próxima reunião, vale reunir a equipe e refletir, juntos, sobre as seguintes perguntas:

  1. Temos, hoje, residentes que utilizam medicamentos partidos ou triturados?
  2. Sabemos identificar quais desses medicamentos são de liberação prolongada (LP, XR, ER, SR, CR, LA) ou possuem revestimento especial?
  3. Como esses comprimidos estão sendo partidos ou triturados no dia a dia? Existe um procedimento padronizado pela equipe, ou cada cuidador faz de um jeito?
  4. Ao adquirir o medicamento, informamos ao fornecedor ou à farmácia que ele poderá ser partido ou triturado?
  5. Antes de partir ou triturar, a equipe consulta o farmacêutico clínico para confirmar se aquele comprimido foi projetado pelo fabricante para ser dividido (com sulco) ou triturado?
  6. Já avaliamos, com o farmacêutico e o médico, se existe uma apresentação alternativa (gotas, solução oral, comprimido dispersível) para os residentes com dificuldade de engolir?

Essas respostas podem revelar oportunidades importantes de melhoria. É esse olhar atento, feito em equipe, que transforma informação técnica em cuidado seguro para cada residente.

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