- A conversa antes da entrada na ILPI
- Sentir-se julgado pela escolha da ILPI
- Por que escolher uma ILPI não significa abandonar uma pessoa
- Não saber como dizer a ele que entrará na ILPI
- Como dizer a um idoso que entrará numa ILPI
- Se não se adaptar à ILPI
- Se for desligado da ILPI
- Desligamento da ILPI: quando pode acontecer
- Quem paga a ILPI se o dinheiro acabar?
- A aliança entre profissionais e famílias
- Porque nenhum de nós cuida sozinho
Nota editorial
Este artigo foi escrito por Linda Sabbadin para a Revista CURA, publicação italiana irmã da Revista Cuidar. Ao traduzi-lo e adaptá-lo para o contexto brasileiro, nos surpreendemos com algo que talvez muitos de nós não imaginaríamos: as dores são as mesmas. O medo de ser julgado, a dificuldade de encontrar as palavras certas, a preocupação com o dinheiro, o medo de que o familiar não se adapte. Tudo isso atravessa oceanos. Porque antes de sermos brasileiros ou italianos, somos pessoas que amam e que, em algum momento da vida, precisam tomar decisões difíceis por quem amam. Foi com esse espírito que escolhemos trazer esse texto até você.
Artigo original da Revista Cura – Itália.
Traduzido por Aline Salla – Revista Cuidar.
₢ Todos os direitos reservados.
A conversa antes da entrada numa ILPI não é apenas um momento para tratar da burocracia com os familiares. É também um dos primeiros pontos de contato onde fazer as pessoas se sentirem acolhidas e livres para expressar o que sentem, muitas vezes carregado de medos.
Neste artigo, Linda Sabbadin – assistente social que acolhe cotidianamente idosos e famílias numa ILPI – reuniu os medos mais comuns surgidos na sua experiência de campo, oferecendo algumas respostas para orientar os cuidadores nessa delicada transição.
A conversa antes da entrada na ILPI
Sendo assistente social numa ILPI, uma das minhas principais funções é conduzir a primeira conversa com os familiares.
Trata-se daquela conversa que acontece antes da entrada, na qual são fornecidas todas as informações sobre a instituição e, ao mesmo tempo, se procura responder a todas as perguntas feitas pelos familiares.
Não se trata de pura burocracia, mas de fazer as pessoas se sentirem acolhidas, compreendidas, livres para dar voz aos pensamentos e também aos medos.
Alguns desses medos chegam em alto e bom som ainda antes da conversa, quando as pessoas telefonam simplesmente para obter informações: para perguntar e entender se esses medos podem ser acalmados.
Percebem-se ao telefone: pelos suspiros, pelos silêncios, por aquele:
“Doutora… Não sei se a senhora entendeu a situação: eu não estou ligando porque quero me livrar dela… entende?”
Sentir-se julgado pela escolha da ILPI
A mudança para uma ILPI ocorre, em geral, após um longo período de cuidado domiciliar; período em que, apesar dos apoios externos, o familiar está sempre na linha de frente.
Porém, ainda está vivo o estereótipo de que a entrada numa ILPI equivale ao abandono.
E assim, já ao telefone ou durante a primeira conversa, as pessoas começam a se justificar com frases do tipo:
“Não é que vou deixá-lo aqui e depois nunca mais apareço”;
“Estou ligando porque não aguento mais”;
“Se não levarem ela, vão ter que levar eu”.
Por que escolher uma ILPI não significa abandonar uma pessoa
Qualquer que seja o profissional com quem você fale, ele trabalha todos os dias em contato com idosos portadores de múltiplas condições de saúde.
Sabe, portanto, muito bem o quanto algumas situações podem se tornar difíceis de gerenciar, tanto do ponto de vista clínico quanto dos transtornos comportamentais (delírios, alucinações, tendência a se afastar do ambiente, comportamentos desinibidos).
Sinta-se à vontade para desabafar, sem pensar que pode ser julgado.
Mesmo que você decida levar um familiar que ainda tem autonomia, e do qual portanto ainda poderia cuidar em casa, ninguém o julgará (pensemos nas instituições que acolhem pessoas independentes).
Os profissionais são especialistas em assistência mas também, especialmente quem os recebe, em relações humanas.
Cuidam do seu familiar e de você desde o momento em que os conhecem.
Não é papel deles olhar para o passado e para as suas escolhas: simplesmente tomarão conhecimento delas, segurarão a sua mão hoje, sem olhar para trás.
Um exemplo concreto, para mim, é o de P., um dos idosos a quem sou mais apegada.
Tem diagnóstico de esquizofrenia ao qual se está unindo um início de demência.
No dia da entrada, a filha me olhou e disse:
“Sua esposa, minha mãe, nunca virá visitá-lo. Eu e meus irmãos viremos quando pudermos.”
Disse isso me pedindo, nas entrelinhas, que não a julgasse pela pouca presença.
Eu a olhei e disse:
“Faça o que sentir. Ninguém aqui vai julgar nem você nem a sua mãe.”
Estou sempre presente para P.
Mas jamais me permitiria julgar a esposa ou os filhos por não virem visitá-lo.
Só eles sabem que homem, pai e marido P. foi.
Não saber como dizer a ele que entrará na ILPI
Na semana passada, após a assinatura do contrato, perguntei à familiar se estava bem para ela uma determinada data para a entrada da mãe.
Ela concordou, mas acrescentou:
“Tudo bem, mas a parte mais difícil será naquele dia. Como faço para ela entrar no carro?
Se eu disser que é uma casa de repouso ela se recusará a entrar no carro e nunca conseguirei levá-la.
Preciso mentir?”
Neste caso, e em todos os casos em que existe esse dilema, estamos falando de uma pessoa com diagnóstico de transtorno neurocognitivo maior, mas com capacidade de deambulação que lhe permite entrar num carro.
Como dizer a um idoso que entrará numa ILPI
Quando me trazem essa questão fazem isso como se fosse algo incomum, mas na realidade esse também é um medo legítimo que o profissional à sua frente está acostumado a ouvir.
Não existe uma estratégia predefinida. Quando me pedem um conselho me vejo, eu mesma, sempre em dificuldade.
A maioria dos profissionais tende a privilegiar sempre dizer a verdade, mas existem também as mentiras piedosas.
Uma das estratégias que mais me marcou foi a usada por uma familiar.
À minha pergunta se havia pensado em como contar, a filha disse ter usado estas palavras:
“Mãe, amanhã vamos nos mudar.
Te levo para outra casa. Maior.”
Se não se adaptar à ILPI
Esse também é um medo que aparece logo, ao telefone.
Muitas vezes, após saber que há vaga, dizem:
“E se o meu familiar entrar e não conseguir se adaptar?”
Trata-se de um medo mais que compreensível.
Se pensarmos bem, a pessoa que chega está deixando o seu contexto, a sua casa, o seu lar.
Seria uma transição desafiadora para qualquer um de nós; imaginemos o quanto pode ser complexo para uma pessoa idosa e em situação de fragilidade, seja ela física ou cognitiva.
Aqui é importante ter à frente um profissional lúcido, que não minta.
Porque talvez, no início, nem tudo vá bem.
Haverá, provavelmente, momentos de forte descompensação, sobretudo em pessoas com diagnóstico de demência.
“Vai se adaptar?” me perguntam.
Há excelentes possibilidades de que isso aconteça, mas muito provavelmente não de imediato e não sabemos de que forma.
Talvez seja preciso uma semana, talvez um mês, talvez seja necessário ajustar a medicação.
O que deve tranquilizar, porém, é que o familiar e toda a equipe estão caminhando exatamente na mesma direção.
Durante o primeiro período, cada ação é voltada para o processo de adaptação.
Os psicólogos provavelmente ajustarão as suas visitas: se perceberem que o seu familiar fica agitado com a sua presença, pedirão que as reduza ou, se ele se tranquiliza, que tente ser mais presente, se possível.
Lembremos sempre que não é apenas o idoso que precisa se adaptar, mas também a sua família.
Se for desligado da ILPI
De todos, esse é, talvez, o maior medo.
Se pensarmos bem, porém, é também o mais compreensível.
Quando a família chega a pensar na mudança para uma ILPI significa que foi alcançado, no cuidado, um momento em que o cuidado especializado se torna necessário.
Levar o familiar para a ILPI muitas vezes significa:
- encerrar o contrato com o profissional que assistia a pessoa em domicílio; retornar ao trabalho, para aquelas pessoas que haviam colocado a sua vida profissional em espera;
- retornar para casa, para os cuidadores que haviam mudado de endereço para assistir ou ajudar nos cuidados;
devolver equipamentos e auxiliares; em alguns casos, para custear o pagamento da mensalidade, significa também colocar à venda a casa do familiar. - O maior medo, para quem foi o cuidador principal, é ouvir que a instituição não consegue mais cuidar do seu familiar e que, em pouco tempo, precisa levá-lo de volta para casa.
Desligamento da ILPI: quando pode acontecer
Antes de tudo é importante fazer uma precisão.
A ILPI é um ambiente de vida comunitária.
Os profissionais devem, portanto, proteger cada pessoa acolhida.
Se um idoso se torna um risco não apenas para si mesmo mas também para os outros, é dever deles tomar providências para proteger a todos.
É necessário, a esse respeito, prestar atenção ao contrato assinado no momento da admissão, pois pode haver, em nível contratual, uma série de situações previstas em que a instituição está autorizada a encerrar o acolhimento.
Apesar disso, as pessoas acolhidas em situação de dependência têm direito a uma série de proteções.
Pode acontecer que uma ILPI, após uma avaliação da equipe, conclua que aquela instituição não é a mais adequada para determinada pessoa. Isso geralmente ocorre por motivos de segurança.
Pensemos, por exemplo, em uma pessoa com tendência a se afastar do ambiente que foi acolhida numa ILPI sem ala de cuidados especializados. Ou em situações que surgem entre residentes em que a convivência não é mais possível (relações conflituosas ou inadequadas).
Os profissionais, porém, acompanharão todo o processo. Ninguém o obrigará a levá-lo para casa ou para outra ILPI com pressa ou prazos curtos.
Os profissionais escolherão, junto com você, a instituição mais adequada. O assistente social o ajudará na escolha e na organização da transferência e, havendo disponibilidade de vaga, será providenciada a transferência de uma instituição para outra.
Quem paga a ILPI se o dinheiro acabar?
Deixada por último e, muitas vezes, dita no final da conversa, por medo de parecer venal.
No entanto, o aspecto financeiro é, compreensivelmente, uma grande fonte de preocupação.
É o caso de idosos sem rede familiar que sempre viveram sozinhos, para os quais à conversa aparece um parente como um primo ou sobrinho. Ou o caso de pessoas com demência de início precoce, para as quais se projeta um período na ILPI que pode se prolongar por anos.
“Mas se o dinheiro acabar, quem paga?” me perguntam frequentemente.
No Brasil, existem previsões legais que estabelecem a obrigação alimentar dos familiares em relação ao idoso em situação de necessidade. Quando não há recursos suficientes, é possível buscar orientação junto à assistência social do município, que avaliará as possibilidades de apoio disponíveis. As condições variam conforme o município e o estado, por isso recomendamos buscar orientação individualizada com um assistente social ou advogado de confiança.
P.S: Em caso de dúvidas sobre apoio financeiro, procure o CRAS, o CREAS ou a Secretaria Municipal de Assistência Social do município do idoso.
A aliança entre profissionais e famílias
Levar um familiar para uma ILPI nunca é uma decisão simples e ativa um processo que oscila entre a necessidade e a sensação de não ter conseguido cuidar do próprio ente querido da forma desejada.
O primeiro passo é estabelecer uma aliança com toda a equipe da ILPI escolhida, de forma a criar uma relação de confiança que ajude a acalmar todos os medos: legítimos, compreensíveis, que o profissional está sempre pronto a ouvir.
Porque nenhum de nós cuida sozinho
As dores que Linda descreveu na Itália são as mesmas que você encontra toda semana na sua ILPI. As mesmas perguntas, os mesmos silêncios ao telefone, os mesmos medos ditos no final da conversa.
E se existe algo que aprendemos com isso, é que a solidão no cuidado não é inevitável. Ela tem solução. E a solução tem nome: encontro.
Em outubro de 2026, pela primeira vez no Brasil, profissionais de todo o país se reúnem no MPC Brasil para fazer exatamente isso: encontrar-se para devolver sentido ao que muito frequentemente é descartado.
Dois dias. Ferramentas reais. Especialistas do Brasil e da Itália. E um princípio que guia tudo:
Nós somos colmeia.
Porque uma abelha sozinha não faz mel. E um profissional sozinho não transforma uma cultura.
Venha fazer parte da primeira edição histórica.
Gratidão de coração
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- Não saber como dizer a ele que entrará na ILPI
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- Desligamento da ILPI: quando pode acontecer
- Quem paga a ILPI se o dinheiro acabar?
- A aliança entre profissionais e famílias
- Porque nenhum de nós cuida sozinho
Nota editorial
Este artigo foi escrito por Linda Sabbadin para a Revista CURA, publicação italiana irmã da Revista Cuidar. Ao traduzi-lo e adaptá-lo para o contexto brasileiro, nos surpreendemos com algo que talvez muitos de nós não imaginaríamos: as dores são as mesmas. O medo de ser julgado, a dificuldade de encontrar as palavras certas, a preocupação com o dinheiro, o medo de que o familiar não se adapte. Tudo isso atravessa oceanos. Porque antes de sermos brasileiros ou italianos, somos pessoas que amam e que, em algum momento da vida, precisam tomar decisões difíceis por quem amam. Foi com esse espírito que escolhemos trazer esse texto até você.
Artigo original da Revista Cura – Itália.
Traduzido por Aline Salla – Revista Cuidar.
₢ Todos os direitos reservados.
A conversa antes da entrada numa ILPI não é apenas um momento para tratar da burocracia com os familiares. É também um dos primeiros pontos de contato onde fazer as pessoas se sentirem acolhidas e livres para expressar o que sentem, muitas vezes carregado de medos.
Neste artigo, Linda Sabbadin – assistente social que acolhe cotidianamente idosos e famílias numa ILPI – reuniu os medos mais comuns surgidos na sua experiência de campo, oferecendo algumas respostas para orientar os cuidadores nessa delicada transição.
A conversa antes da entrada na ILPI
Sendo assistente social numa ILPI, uma das minhas principais funções é conduzir a primeira conversa com os familiares.
Trata-se daquela conversa que acontece antes da entrada, na qual são fornecidas todas as informações sobre a instituição e, ao mesmo tempo, se procura responder a todas as perguntas feitas pelos familiares.
Não se trata de pura burocracia, mas de fazer as pessoas se sentirem acolhidas, compreendidas, livres para dar voz aos pensamentos e também aos medos.
Alguns desses medos chegam em alto e bom som ainda antes da conversa, quando as pessoas telefonam simplesmente para obter informações: para perguntar e entender se esses medos podem ser acalmados.
Percebem-se ao telefone: pelos suspiros, pelos silêncios, por aquele:
“Doutora… Não sei se a senhora entendeu a situação: eu não estou ligando porque quero me livrar dela… entende?”
Sentir-se julgado pela escolha da ILPI
A mudança para uma ILPI ocorre, em geral, após um longo período de cuidado domiciliar; período em que, apesar dos apoios externos, o familiar está sempre na linha de frente.
Porém, ainda está vivo o estereótipo de que a entrada numa ILPI equivale ao abandono.
E assim, já ao telefone ou durante a primeira conversa, as pessoas começam a se justificar com frases do tipo:
“Não é que vou deixá-lo aqui e depois nunca mais apareço”;
“Estou ligando porque não aguento mais”;
“Se não levarem ela, vão ter que levar eu”.
Por que escolher uma ILPI não significa abandonar uma pessoa
Qualquer que seja o profissional com quem você fale, ele trabalha todos os dias em contato com idosos portadores de múltiplas condições de saúde.
Sabe, portanto, muito bem o quanto algumas situações podem se tornar difíceis de gerenciar, tanto do ponto de vista clínico quanto dos transtornos comportamentais (delírios, alucinações, tendência a se afastar do ambiente, comportamentos desinibidos).
Sinta-se à vontade para desabafar, sem pensar que pode ser julgado.
Mesmo que você decida levar um familiar que ainda tem autonomia, e do qual portanto ainda poderia cuidar em casa, ninguém o julgará (pensemos nas instituições que acolhem pessoas independentes).
Os profissionais são especialistas em assistência mas também, especialmente quem os recebe, em relações humanas.
Cuidam do seu familiar e de você desde o momento em que os conhecem.
Não é papel deles olhar para o passado e para as suas escolhas: simplesmente tomarão conhecimento delas, segurarão a sua mão hoje, sem olhar para trás.
Um exemplo concreto, para mim, é o de P., um dos idosos a quem sou mais apegada.
Tem diagnóstico de esquizofrenia ao qual se está unindo um início de demência.
No dia da entrada, a filha me olhou e disse:
“Sua esposa, minha mãe, nunca virá visitá-lo. Eu e meus irmãos viremos quando pudermos.”
Disse isso me pedindo, nas entrelinhas, que não a julgasse pela pouca presença.
Eu a olhei e disse:
“Faça o que sentir. Ninguém aqui vai julgar nem você nem a sua mãe.”
Estou sempre presente para P.
Mas jamais me permitiria julgar a esposa ou os filhos por não virem visitá-lo.
Só eles sabem que homem, pai e marido P. foi.
Não saber como dizer a ele que entrará na ILPI
Na semana passada, após a assinatura do contrato, perguntei à familiar se estava bem para ela uma determinada data para a entrada da mãe.
Ela concordou, mas acrescentou:
“Tudo bem, mas a parte mais difícil será naquele dia. Como faço para ela entrar no carro?
Se eu disser que é uma casa de repouso ela se recusará a entrar no carro e nunca conseguirei levá-la.
Preciso mentir?”
Neste caso, e em todos os casos em que existe esse dilema, estamos falando de uma pessoa com diagnóstico de transtorno neurocognitivo maior, mas com capacidade de deambulação que lhe permite entrar num carro.
Como dizer a um idoso que entrará numa ILPI
Quando me trazem essa questão fazem isso como se fosse algo incomum, mas na realidade esse também é um medo legítimo que o profissional à sua frente está acostumado a ouvir.
Não existe uma estratégia predefinida. Quando me pedem um conselho me vejo, eu mesma, sempre em dificuldade.
A maioria dos profissionais tende a privilegiar sempre dizer a verdade, mas existem também as mentiras piedosas.
Uma das estratégias que mais me marcou foi a usada por uma familiar.
À minha pergunta se havia pensado em como contar, a filha disse ter usado estas palavras:
“Mãe, amanhã vamos nos mudar.
Te levo para outra casa. Maior.”
Se não se adaptar à ILPI
Esse também é um medo que aparece logo, ao telefone.
Muitas vezes, após saber que há vaga, dizem:
“E se o meu familiar entrar e não conseguir se adaptar?”
Trata-se de um medo mais que compreensível.
Se pensarmos bem, a pessoa que chega está deixando o seu contexto, a sua casa, o seu lar.
Seria uma transição desafiadora para qualquer um de nós; imaginemos o quanto pode ser complexo para uma pessoa idosa e em situação de fragilidade, seja ela física ou cognitiva.
Aqui é importante ter à frente um profissional lúcido, que não minta.
Porque talvez, no início, nem tudo vá bem.
Haverá, provavelmente, momentos de forte descompensação, sobretudo em pessoas com diagnóstico de demência.
“Vai se adaptar?” me perguntam.
Há excelentes possibilidades de que isso aconteça, mas muito provavelmente não de imediato e não sabemos de que forma.
Talvez seja preciso uma semana, talvez um mês, talvez seja necessário ajustar a medicação.
O que deve tranquilizar, porém, é que o familiar e toda a equipe estão caminhando exatamente na mesma direção.
Durante o primeiro período, cada ação é voltada para o processo de adaptação.
Os psicólogos provavelmente ajustarão as suas visitas: se perceberem que o seu familiar fica agitado com a sua presença, pedirão que as reduza ou, se ele se tranquiliza, que tente ser mais presente, se possível.
Lembremos sempre que não é apenas o idoso que precisa se adaptar, mas também a sua família.
Se for desligado da ILPI
De todos, esse é, talvez, o maior medo.
Se pensarmos bem, porém, é também o mais compreensível.
Quando a família chega a pensar na mudança para uma ILPI significa que foi alcançado, no cuidado, um momento em que o cuidado especializado se torna necessário.
Levar o familiar para a ILPI muitas vezes significa:
- encerrar o contrato com o profissional que assistia a pessoa em domicílio; retornar ao trabalho, para aquelas pessoas que haviam colocado a sua vida profissional em espera;
- retornar para casa, para os cuidadores que haviam mudado de endereço para assistir ou ajudar nos cuidados;
devolver equipamentos e auxiliares; em alguns casos, para custear o pagamento da mensalidade, significa também colocar à venda a casa do familiar. - O maior medo, para quem foi o cuidador principal, é ouvir que a instituição não consegue mais cuidar do seu familiar e que, em pouco tempo, precisa levá-lo de volta para casa.
Desligamento da ILPI: quando pode acontecer
Antes de tudo é importante fazer uma precisão.
A ILPI é um ambiente de vida comunitária.
Os profissionais devem, portanto, proteger cada pessoa acolhida.
Se um idoso se torna um risco não apenas para si mesmo mas também para os outros, é dever deles tomar providências para proteger a todos.
É necessário, a esse respeito, prestar atenção ao contrato assinado no momento da admissão, pois pode haver, em nível contratual, uma série de situações previstas em que a instituição está autorizada a encerrar o acolhimento.
Apesar disso, as pessoas acolhidas em situação de dependência têm direito a uma série de proteções.
Pode acontecer que uma ILPI, após uma avaliação da equipe, conclua que aquela instituição não é a mais adequada para determinada pessoa. Isso geralmente ocorre por motivos de segurança.
Pensemos, por exemplo, em uma pessoa com tendência a se afastar do ambiente que foi acolhida numa ILPI sem ala de cuidados especializados. Ou em situações que surgem entre residentes em que a convivência não é mais possível (relações conflituosas ou inadequadas).
Os profissionais, porém, acompanharão todo o processo. Ninguém o obrigará a levá-lo para casa ou para outra ILPI com pressa ou prazos curtos.
Os profissionais escolherão, junto com você, a instituição mais adequada. O assistente social o ajudará na escolha e na organização da transferência e, havendo disponibilidade de vaga, será providenciada a transferência de uma instituição para outra.
Quem paga a ILPI se o dinheiro acabar?
Deixada por último e, muitas vezes, dita no final da conversa, por medo de parecer venal.
No entanto, o aspecto financeiro é, compreensivelmente, uma grande fonte de preocupação.
É o caso de idosos sem rede familiar que sempre viveram sozinhos, para os quais à conversa aparece um parente como um primo ou sobrinho. Ou o caso de pessoas com demência de início precoce, para as quais se projeta um período na ILPI que pode se prolongar por anos.
“Mas se o dinheiro acabar, quem paga?” me perguntam frequentemente.
No Brasil, existem previsões legais que estabelecem a obrigação alimentar dos familiares em relação ao idoso em situação de necessidade. Quando não há recursos suficientes, é possível buscar orientação junto à assistência social do município, que avaliará as possibilidades de apoio disponíveis. As condições variam conforme o município e o estado, por isso recomendamos buscar orientação individualizada com um assistente social ou advogado de confiança.
P.S: Em caso de dúvidas sobre apoio financeiro, procure o CRAS, o CREAS ou a Secretaria Municipal de Assistência Social do município do idoso.
A aliança entre profissionais e famílias
Levar um familiar para uma ILPI nunca é uma decisão simples e ativa um processo que oscila entre a necessidade e a sensação de não ter conseguido cuidar do próprio ente querido da forma desejada.
O primeiro passo é estabelecer uma aliança com toda a equipe da ILPI escolhida, de forma a criar uma relação de confiança que ajude a acalmar todos os medos: legítimos, compreensíveis, que o profissional está sempre pronto a ouvir.
Porque nenhum de nós cuida sozinho
As dores que Linda descreveu na Itália são as mesmas que você encontra toda semana na sua ILPI. As mesmas perguntas, os mesmos silêncios ao telefone, os mesmos medos ditos no final da conversa.
E se existe algo que aprendemos com isso, é que a solidão no cuidado não é inevitável. Ela tem solução. E a solução tem nome: encontro.
Em outubro de 2026, pela primeira vez no Brasil, profissionais de todo o país se reúnem no MPC Brasil para fazer exatamente isso: encontrar-se para devolver sentido ao que muito frequentemente é descartado.
Dois dias. Ferramentas reais. Especialistas do Brasil e da Itália. E um princípio que guia tudo:
Nós somos colmeia.
Porque uma abelha sozinha não faz mel. E um profissional sozinho não transforma uma cultura.
Venha fazer parte da primeira edição histórica.
Gratidão de coração







Que artigo maravilhoso ! Sim , os países são diferentes , mas o contexto é similar O sentimento de culpa, o cansaço físico e mental do cuidador responsável , o desconhecimento de como cuidar de novas situações , a falta de rede de apoio sempre estão presentes nos primeiros contatos ..