Por Letizia Espanoli — Modelo Sente-Mente® Itália | Adaptação para o contexto brasileiro de ILPI – autorizado para Revista Cuidar® – Traduzido por: Aline Salla
Usamos frequentemente essas expressões como se fossem sinônimas. “Nós cuidamos dos idosos.” Soa bem. É tranquilizador. É socialmente aceito. Mas paremos por um instante e façamos uma pergunta incômoda, daquelas que abrem uma brecha:
Estamos realmente cuidando das pessoas ou estamos apenas atendendo a elas?
A diferença não é linguística. É ontológica. É uma mudança de referencial que decide como olhamos para o outro e em quem nos tornamos enquanto trabalhamos.
Atender não é o mesmo que cuidar
Atender traz consigo uma lógica precisa. Atender pode significar assumir, administrar, tomar para si uma tarefa ou uma responsabilidade. Isso funciona muito bem quando falamos de coisas: assumir uma tarefa, administrar uma situação, resolver um problema.
Quando, porém, essa lógica entra na relação com uma pessoa, existe o risco de transformar a pessoa em algo a que fazemos manutenção constante. O corpo passa a ser o centro, a necessidade física torna-se o objetivo, e a checklist vira a bússola: levantou, lavou-se, comeu, fez. Atender passa a ser entendido como uma sequência de ações corretas, e não como um encontro.
A literatura internacional sobre o que chama de cuidado centrado na tarefa (task-centred care) em instituições de longa permanência para idosos (o que este texto vem chamando de atendimento) mostra claramente esse risco. Quando a organização e a linguagem estão centradas na tarefa, a pessoa pode ser progressivamente reduzida a um “caso”, a um “corpo”, a um “problema a ser resolvido”.
Mesmo quando tudo é feito corretamente, a experiência da pessoa pode ser de despersonalização, perda de controle e exposição.
O atendimento torna-se eficiente, mas pobre de sentido.
Porque cuidar não é apenas fazer algo por alguém. É fazer algo com alguém, para alguém e, sobretudo, reconhecer alguém.
Cuidar começa quando o outro deixa de ser uma tarefa
Cuidar, por outro lado, nos convida a uma mudança de perspectiva. Aqui, não se parte do fazer, mas do ser.
Na filosofia do cuidado, de Heidegger às formulações contemporâneas de Luigina Mortari, o cuidado não é simplesmente uma ação entre tantas outras: é o modo fundamental da existência humana. É aquilo que nos torna capazes de proteger a vida, sustentá-la e acompanhá-la sem possuir o outro.
Cuidar significa criar condições para que o outro possa existir em sua liberdade, fragilidade e singularidade, mesmo quando já não é autônomo, produtivo ou performático.
Essa perspectiva tem uma consequência radical para quem trabalha em uma instituição de longa permanência para idosos:
não podemos cuidar do outro sem começar por uma pergunta sobre nós mesmos.
- Por que você está aqui?
- Que sentido tem, para você, levantar-se todas as manhãs para fazer este trabalho?
Essas perguntas não são abstratas. Elas chegam diretamente ao cotidiano de quem cuida.
A literatura sobre o significado do trabalho de cuidado e sobre a motivação intrínseca mostra que, quando os profissionais conseguem conectar as ações cotidianas a um sentido mais amplo (vocação, contribuição, pertencimento), a fadiga pesa menos, o burnout desacelera, a presença se torna mais estável.
Não porque o trabalho fique mais fácil, mas porque passa a ter um porquê.
Cuidar também transforma o próprio projeto assistencial
Ele deixa de ser apenas um documento, um protocolo ou uma obrigação burocrática, e passa a ser um ato que exala vida.
O objetivo não é apenas manter funções ou retardar o declínio. É possibilitar que a pessoa floresça naquilo que ainda é possível, preservando desejos, escolhas, vínculos, emoções e pequenas formas de autonomia, até o último suspiro.
Isso está em sintonia com as evidências sobre atividades significativas e personalizadas: quando o cuidar encontra os desejos, os valores e as emoções da pessoa, a qualidade de vida pode melhorar e os comportamentos de resistência podem diminuir.
Porque, no fim, cuidar é relação.
Da tarefa ao encontro: uma mudança possível
Uma imagem pode ajudar.
Atender é como fazer a manutenção de um edifício para que ele não desabe.
Cuidar é habitá-lo.
É acender uma luz. É abrir uma janela. É respeitar os silêncios. É perceber que aquela pessoa tem uma história. É perguntar antes de tocar. É oferecer uma escolha quando ainda existe possibilidade de escolher. É transformar um quarto em casa.
Ambas as dimensões são necessárias. A técnica é indispensável. A organização é indispensável. Os procedimentos são indispensáveis.
Mas, sem relação, a técnica pode se tornar fria. E, sem sentido, o cuidado pode se transformar em mero atendimento.
Chamada para a ação individual
Hoje, durante o seu turno, escolha uma ação que você realiza quase automaticamente.
Pode ser a higiene, o banho, a alimentação, a troca de roupa, a mobilização ou simplesmente o momento de entrar no quarto.
E pergunte a si mesmo:
- Estou apenas atendendo ou estou realmente cuidando?
- Estou vendo uma tarefa ou uma pessoa?
- O que posso mudar sem aumentar o meu trabalho?
Mude apenas uma coisa.
O tempo. As palavras. O olhar. O tom de voz. A maneira de tocar. O pedido de permissão. A possibilidade de escolha.
Depois, observe o que acontece.
Às vezes, uma pequena mudança na maneira de fazer transforma completamente a experiência de quem recebe, e também de quem cuida.
Exercício para a equipe (10 minutos)
Na próxima reunião, experimentem um exercício simples.
Escolham uma ação cotidiana (higiene, alimentação ou mobilização) e descrevam-na em duas colunas:
| Atender | Cuidar |
|---|---|
| O que precisa ser feito? | O que a pessoa precisa neste momento? |
| Qual é o procedimento? | Qual é a sua preferência? |
| Como concluir a tarefa? | Como preservar sua escolha? |
| Como ganhar tempo? | Como tornar esse momento mais humano? |
Depois, façam uma pergunta fundamental:
Quais elementos de sentido, relação e escolha podemos introduzir sem aumentar a carga de trabalho?
Talvez a resposta não esteja em fazer mais.
Talvez esteja em fazer diferente.
E podemos encerrar com uma frase que talvez possa se tornar uma bússola para quem trabalha diariamente com pessoas:
Atender mantém a vida.
Cuidar faz existir.
E talvez seja justamente essa a diferença que precisamos reaprender todos os dias:
não basta atender a alguém. É preciso cuidar para que esse alguém continue sendo alguém, com sua história, seus desejos, sua dignidade e sua maneira única de existir.
Porque o verdadeiro cuidar começa quando, diante de uma tarefa, ainda conseguimos enxergar uma pessoa.
Vamos nos encontrar pessoalmente?
Se o que você leu até aqui faz sentido no seu dia a dia, talvez valha sair da tela e encontrar, ao vivo, quem pensa cuidado do mesmo jeito.
Nos dias 1 e 2 de outubro, a Revista Cuidar realiza o MPC Brasil 2026, o Meeting dos Profissionais de Cuidar, em São José do Rio Preto (SP). São dois dias de imersão, com mais de 35 especialistas do Brasil e da Itália, 16 workshops práticos e 4 plenárias sobre gestão, formação e cuidado centrado na pessoa. O tema deste ano é “Não corpos, pessoas”: o mesmo espírito deste texto.
As inscrições encerram no dia 10 de setembro.
Se você é gestor, enfermeiro, cuidador, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista ou qualquer outra pessoa que sustenta o cuidado todos os dias dentro de uma ILPI, este encontro é para você.
Saiba mais e garanta sua vaga em revistacuidar.com.br/mpc.
Gravação Live – Cuidado Centrado – convite da Gerifácil
Para quem perdeu o bate papo ao vivo, segue a gravação. Lembrando que o propósito é sempre compartilhar, refletirmos juntos e amanhã pode ser tudo diferente para o melhor… E ainda bem, né?
Nota importante: Os conteúdos publicados na Revista Cuidar são protegidos por direitos autorais. A reprodução parcial ou total de qualquer texto, adaptação ou redistribuição, seja em meio digital ou impresso, somente é permitida mediante citação da fonte: Revista Cuidar – No coração das ILPI. Qualquer uso não autorizado é proibido. © Revista Cuidar.
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Por Letizia Espanoli — Modelo Sente-Mente® Itália | Adaptação para o contexto brasileiro de ILPI – autorizado para Revista Cuidar® – Traduzido por: Aline Salla
Usamos frequentemente essas expressões como se fossem sinônimas. “Nós cuidamos dos idosos.” Soa bem. É tranquilizador. É socialmente aceito. Mas paremos por um instante e façamos uma pergunta incômoda, daquelas que abrem uma brecha:
Estamos realmente cuidando das pessoas ou estamos apenas atendendo a elas?
A diferença não é linguística. É ontológica. É uma mudança de referencial que decide como olhamos para o outro e em quem nos tornamos enquanto trabalhamos.
Atender não é o mesmo que cuidar
Atender traz consigo uma lógica precisa. Atender pode significar assumir, administrar, tomar para si uma tarefa ou uma responsabilidade. Isso funciona muito bem quando falamos de coisas: assumir uma tarefa, administrar uma situação, resolver um problema.
Quando, porém, essa lógica entra na relação com uma pessoa, existe o risco de transformar a pessoa em algo a que fazemos manutenção constante. O corpo passa a ser o centro, a necessidade física torna-se o objetivo, e a checklist vira a bússola: levantou, lavou-se, comeu, fez. Atender passa a ser entendido como uma sequência de ações corretas, e não como um encontro.
A literatura internacional sobre o que chama de cuidado centrado na tarefa (task-centred care) em instituições de longa permanência para idosos (o que este texto vem chamando de atendimento) mostra claramente esse risco. Quando a organização e a linguagem estão centradas na tarefa, a pessoa pode ser progressivamente reduzida a um “caso”, a um “corpo”, a um “problema a ser resolvido”.
Mesmo quando tudo é feito corretamente, a experiência da pessoa pode ser de despersonalização, perda de controle e exposição.
O atendimento torna-se eficiente, mas pobre de sentido.
Porque cuidar não é apenas fazer algo por alguém. É fazer algo com alguém, para alguém e, sobretudo, reconhecer alguém.
Cuidar começa quando o outro deixa de ser uma tarefa
Cuidar, por outro lado, nos convida a uma mudança de perspectiva. Aqui, não se parte do fazer, mas do ser.
Na filosofia do cuidado, de Heidegger às formulações contemporâneas de Luigina Mortari, o cuidado não é simplesmente uma ação entre tantas outras: é o modo fundamental da existência humana. É aquilo que nos torna capazes de proteger a vida, sustentá-la e acompanhá-la sem possuir o outro.
Cuidar significa criar condições para que o outro possa existir em sua liberdade, fragilidade e singularidade, mesmo quando já não é autônomo, produtivo ou performático.
Essa perspectiva tem uma consequência radical para quem trabalha em uma instituição de longa permanência para idosos:
não podemos cuidar do outro sem começar por uma pergunta sobre nós mesmos.
- Por que você está aqui?
- Que sentido tem, para você, levantar-se todas as manhãs para fazer este trabalho?
Essas perguntas não são abstratas. Elas chegam diretamente ao cotidiano de quem cuida.
A literatura sobre o significado do trabalho de cuidado e sobre a motivação intrínseca mostra que, quando os profissionais conseguem conectar as ações cotidianas a um sentido mais amplo (vocação, contribuição, pertencimento), a fadiga pesa menos, o burnout desacelera, a presença se torna mais estável.
Não porque o trabalho fique mais fácil, mas porque passa a ter um porquê.
Cuidar também transforma o próprio projeto assistencial
Ele deixa de ser apenas um documento, um protocolo ou uma obrigação burocrática, e passa a ser um ato que exala vida.
O objetivo não é apenas manter funções ou retardar o declínio. É possibilitar que a pessoa floresça naquilo que ainda é possível, preservando desejos, escolhas, vínculos, emoções e pequenas formas de autonomia, até o último suspiro.
Isso está em sintonia com as evidências sobre atividades significativas e personalizadas: quando o cuidar encontra os desejos, os valores e as emoções da pessoa, a qualidade de vida pode melhorar e os comportamentos de resistência podem diminuir.
Porque, no fim, cuidar é relação.
Da tarefa ao encontro: uma mudança possível
Uma imagem pode ajudar.
Atender é como fazer a manutenção de um edifício para que ele não desabe.
Cuidar é habitá-lo.
É acender uma luz. É abrir uma janela. É respeitar os silêncios. É perceber que aquela pessoa tem uma história. É perguntar antes de tocar. É oferecer uma escolha quando ainda existe possibilidade de escolher. É transformar um quarto em casa.
Ambas as dimensões são necessárias. A técnica é indispensável. A organização é indispensável. Os procedimentos são indispensáveis.
Mas, sem relação, a técnica pode se tornar fria. E, sem sentido, o cuidado pode se transformar em mero atendimento.
Chamada para a ação individual
Hoje, durante o seu turno, escolha uma ação que você realiza quase automaticamente.
Pode ser a higiene, o banho, a alimentação, a troca de roupa, a mobilização ou simplesmente o momento de entrar no quarto.
E pergunte a si mesmo:
- Estou apenas atendendo ou estou realmente cuidando?
- Estou vendo uma tarefa ou uma pessoa?
- O que posso mudar sem aumentar o meu trabalho?
Mude apenas uma coisa.
O tempo. As palavras. O olhar. O tom de voz. A maneira de tocar. O pedido de permissão. A possibilidade de escolha.
Depois, observe o que acontece.
Às vezes, uma pequena mudança na maneira de fazer transforma completamente a experiência de quem recebe, e também de quem cuida.
Exercício para a equipe (10 minutos)
Na próxima reunião, experimentem um exercício simples.
Escolham uma ação cotidiana (higiene, alimentação ou mobilização) e descrevam-na em duas colunas:
| Atender | Cuidar |
|---|---|
| O que precisa ser feito? | O que a pessoa precisa neste momento? |
| Qual é o procedimento? | Qual é a sua preferência? |
| Como concluir a tarefa? | Como preservar sua escolha? |
| Como ganhar tempo? | Como tornar esse momento mais humano? |
Depois, façam uma pergunta fundamental:
Quais elementos de sentido, relação e escolha podemos introduzir sem aumentar a carga de trabalho?
Talvez a resposta não esteja em fazer mais.
Talvez esteja em fazer diferente.
E podemos encerrar com uma frase que talvez possa se tornar uma bússola para quem trabalha diariamente com pessoas:
Atender mantém a vida.
Cuidar faz existir.
E talvez seja justamente essa a diferença que precisamos reaprender todos os dias:
não basta atender a alguém. É preciso cuidar para que esse alguém continue sendo alguém, com sua história, seus desejos, sua dignidade e sua maneira única de existir.
Porque o verdadeiro cuidar começa quando, diante de uma tarefa, ainda conseguimos enxergar uma pessoa.
Vamos nos encontrar pessoalmente?
Se o que você leu até aqui faz sentido no seu dia a dia, talvez valha sair da tela e encontrar, ao vivo, quem pensa cuidado do mesmo jeito.
Nos dias 1 e 2 de outubro, a Revista Cuidar realiza o MPC Brasil 2026, o Meeting dos Profissionais de Cuidar, em São José do Rio Preto (SP). São dois dias de imersão, com mais de 35 especialistas do Brasil e da Itália, 16 workshops práticos e 4 plenárias sobre gestão, formação e cuidado centrado na pessoa. O tema deste ano é “Não corpos, pessoas”: o mesmo espírito deste texto.
As inscrições encerram no dia 10 de setembro.
Se você é gestor, enfermeiro, cuidador, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista ou qualquer outra pessoa que sustenta o cuidado todos os dias dentro de uma ILPI, este encontro é para você.
Saiba mais e garanta sua vaga em revistacuidar.com.br/mpc.
Gravação Live – Cuidado Centrado – convite da Gerifácil
Para quem perdeu o bate papo ao vivo, segue a gravação. Lembrando que o propósito é sempre compartilhar, refletirmos juntos e amanhã pode ser tudo diferente para o melhor… E ainda bem, né?
Nota importante: Os conteúdos publicados na Revista Cuidar são protegidos por direitos autorais. A reprodução parcial ou total de qualquer texto, adaptação ou redistribuição, seja em meio digital ou impresso, somente é permitida mediante citação da fonte: Revista Cuidar – No coração das ILPI. Qualquer uso não autorizado é proibido. © Revista Cuidar.
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