O envelhecimento da população é uma realidade global e irreversível. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de pessoas com mais de 60 anos deve dobrar até 2050. No Brasil, essa mudança já impacta diretamente os modelos de cuidado, especialmente nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI).

Mas, diante desse cenário, uma pergunta se impõe: estamos realmente preparados para cuidar ou apenas para assistir?

Durante décadas, o cuidado em ILPI esteve centrado na assistência básica: alimentação, higiene e segurança. No entanto, o perfil atual dos residentes revela uma realidade mais complexa. São pessoas que, na maioria das vezes, chegam após o esgotamento do cuidado domiciliar, trazendo fragilidades cognitivas, motoras, sensoriais e sociais.

Cuidar hoje exige muito mais do que manter. Exige desenvolver, estimular e ressignificar. E isso só é possível com uma equipe multiprofissional preparada, integrada e comprometida com cada história de vida.

Vivemos em uma sociedade que começa, finalmente, a discutir o combate ao idadismo

Ainda assim, ao entrar em uma ILPI, muitas vezes esse princípio se dilui na rotina. É comum ouvirmos relatos como: “foi um plantão tranquilo, ele ficou onde colocamos, comeu o que servimos”. Mas o que parece facilidade operacional pode, na verdade, revelar a ausência de protagonismo do residente.

A pessoa idosa que vive em uma moradia coletiva continua sendo sujeito de desejos, escolhas e opiniões. Ela tem o direito de opinar sobre o que come, o que veste, onde quer estar e, principalmente, como quer viver.

Quando o cuidado ignora isso, ele deixa de ser cuidado e passa a ser controle.

Saber quem é aquele residente, suas preferências, seus medos, seus hábitos, seus sonhos, é o que permite sair do modelo padronizado e construir um cuidado real.

Esse olhar está alinhado ao conceito de Cuidado Centrado na Pessoa, amplamente reconhecido na literatura científica como um dos pilares da qualidade assistencial em envelhecimento (Kitwood, 1997; WHO, 2015).

Sem isso, o risco é simples e grave: tratar todos como iguais e, assim, não cuidar de ninguém de verdade.

A presença de uma equipe multiprofissional não é um diferencial. É condição básica para um cuidado adequado.

Fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, profissionais de educação física, psicomotricistas, musicoterapeutas, arte-terapeutas, psicólogos, oficineiros, assistentes sociais e tantos outros devem atuar de forma integrada para avaliar, planejar e adaptar intervenções que promovem funcionalidade, autonomia e bem-estar. São esses profissionais que conseguem enxergar além da limitação e transformar potencial em prática.

Existe um ponto crítico que precisa ser discutido com maturidade: o uso do termo “recreação” dentro das ILPI

No Brasil, a legislação passou a exigir a oferta de atividades, mas sem estruturar, de fato, quem são os profissionais preparados para isso. O resultado foi a banalização dessas práticas.

Em países como a Itália, a realidade é diferente. Existe a formação específica de profissionais chamados “animadores”, hoje também reconhecidos como educadores, que estudam longevidade, funcionalidade e estratégias de estímulo para pessoas idosas, especialmente aquelas em situação de fragilidade.

Esses profissionais não “ocupam” os residentes. Eles conduzem intervenções com propósito.

No Brasil, infelizmente, muitas atividades ainda são conduzidas por pessoas sem formação específica em envelhecimento, sem supervisão técnica e sem preparo para adaptar propostas às limitações sensoriais, cognitivas e motoras dos residentes.

E isso não é apenas uma questão de qualidade. É uma questão de segurança e ética no cuidado.

Nem todo idoso gosta de bingo e isso precisa ser dito.

Existe um imaginário coletivo perigoso: o de que envelhecer significa gostar das mesmas coisas. Bingo todos os dias. Palavra cruzada como regra. Atividades repetidas, padronizadas. Mas e se aquela pessoa não gosta disso? E se aquela atividade desperta frustração ou até memórias negativas?

Quando a atividade não respeita a história de vida, ela deixa de estimular e passa a gerar desconforto. Estimular não é ocupar o tempo. É criar sentido.

Atividade é intervenção e tem evidência científica.

A ciência já é clara: atividades físicas, cognitivas e sociais são determinantes para a saúde na longevidade.

Estudos demonstram que pessoas idosas fisicamente ativas apresentam melhor capacidade funcional, maior autonomia e melhor qualidade de vida (OMS, 2020). Além disso, intervenções estruturadas reduzem sintomas depressivos (Blake et al., 2009), melhoram funções cognitivas e retardam declínio (Livingston et al., 2020), diminuem risco de quedas e hospitalizações (Sherrington et al., 2019) e promovem neuroplasticidade e preservação cerebral (Erickson et al., 2011).

Ou seja: um cotidiano enriquecido é cuidado baseado em evidência.

Para gestores: investir em estímulo também é economia.

Existe ainda um ponto estratégico que precisa ser reforçado: o impacto econômico.

Estudos indicam que a promoção da funcionalidade e da autonomia reduz significativamente os gastos em saúde a médio e longo prazo (WHO, 2015; OECD, 2020).

Programas estruturados de atividade e reabilitação previnem complicações clínicas, evitam dependência funcional precoce, reduzem em até 30% o risco de quedas (OMS, 2015), podem atrasar em até 5 anos a evolução de demências em fases iniciais (Alzheimer’s Disease International, 2018), aumentam percepção de bem-estar e reduzem hospitalizações, e fortalecem o senso de pertencimento. Cada R$1 investido em envelhecimento ativo pode gerar até R$4 de economia no sistema de saúde (OPAS, 2018).

Investir em equipe qualificada e atividades bem estruturadas não aumenta custos. Evita complicações.

A falta de adaptação das atividades é outro desafio recorrente.

Grupos pensados apenas para quem enxerga bem, escuta bem ou tem cognição preservada acabam excluindo justamente quem mais precisa.

O cuidado exige adaptação. Exige compreender diferentes níveis de funcionalidade e garantir que todos participem, cada um dentro das suas possibilidades.

Incluir não é colocar no mesmo espaço. É tornar possível participar, através de estratégias e atividades intencionais.

É essencial ter equipe adequada, supervisionada e em constante evolução.

Não basta ter profissionais. É preciso ter profissionais preparados e bem conduzidos. Equipes sem formação específica em envelhecimento, sem capacitação contínua e sem supervisão técnica tendem a reproduzir práticas inadequadas, padronizadas ou até infantilizantes.

A atuação multiprofissional exige integração, troca constante e alinhamento de condutas. Exige estudo. Exige atualização. Exige responsabilidade.

Porque, no cuidado ao idoso, o improviso não é neutro. Ele pode ser prejudicial.

A ILPI não pode mais ser vista como última alternativa

Ela precisa ser ressignificada como espaço de continuidade, de construção, de pertencimento.

Um lugar onde ainda é possível criar vínculos, descobrir novos interesses, iniciar projetos e se sentir vivo.

Porque mesmo diante da fragilidade, pode existir potência.

Lembro de uma idosa assistida pelo nosso time que, em função de degeneração macular, já não enxergava bem. Em sua jornada de vida, havia sido voluntária em um centro espírita, onde consertava roupas doadas para um bazar. Mesmo aos 94 anos, mantinha o desejo de ser útil. Treinamos o manuseio de miçangas e fio de nylon. Ao longo da semana, colares eram produzidos e finalizados na terapia ocupacional. Depois, foram doados e vendidos no mesmo bazar. Ela poderia ter sido privada dessa experiência. A equipe poderia ter feito tudo por ela. Mas, juntos, escolheram o caminho do protagonismo. E isso transforma.

Assim, não é sobre ocupar. É sobre cuidar de verdade.

Oferecer qualquer atividade apenas para cumprir protocolo é reduzir o cuidado a uma formalidade.

Cuidar de verdade exige presença, conhecimento e intenção. Exige abandonar padrões prontos. Exige escuta. Exige respeito.

A equipe multiprofissional não está ali para ocupar o tempo. Está ali para garantir que a vida, mesmo em sua fase mais frágil, continue tendo sentido.

Porque envelhecer com dignidade não é um privilégio.

É um direito.

Venha aprofundar esse olhar no MPC Brasil.

Se você é profissional de uma equipe multiprofissional ou gestor de ILPI e deseja transformar a forma como o cuidado é praticado na sua instituição, este é o seu convite.

No dia 1º de outubro, das 15h às 17h, Mayara Martins conduz o workshop “Mergulhe em Mim: Desvendando o Sentir através da Equipe Multidisciplinar nas ILPIs”, no MPC Brasil 2026. Um espaço de reflexão, presença e construção coletiva, onde o cuidado deixa de ser protocolo e passa a ser conexão real com a pessoa idosa.

Porque cuidar de verdade começa por sentir.

Te esperamos lá.

Apaixonada pelo cuidado integral do ser humano, Mayara é Terapeuta Ocupacional formada pela UNIFESP, com trajetória dedicada à Saúde Mental, Neuroaprendizagem, Gerontologia, Dinâmicas Familiares e Gestão. Ao longo dos anos, desenvolveu uma visão sensível e inovadora sobre o envelhecimento, unindo ciência e empatia para transformar o cotidiano de instituições de longa permanência. Como CEO e Mentora da metodologia ABIÊ Terapias, e Consultora em Saúde, lidera equipes multidisciplinares com o propósito de ressignificar o cuidado, fortalecendo o vínculo entre profissionais, idosos e suas famílias. Sua atuação vai além da gestão: constrói espaços de acolhimento, desenvolvimento humano e excelência terapêutica, trazendo abordagens práticas personalizadas para cada história de vida. Acredita que o verdadeiro cuidado nasce do trabalho em equipe, onde cada profissional oferece o seu melhor e juntos criam um ambiente de dignidade, bem-estar e amor para quem mais precisa.

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