Por: LETIZIA ESPANOLI – Criadora do modelo Sente-mente®
Artigo traduzido por: Aline Salla – autorizado para Revista Cuidar®
Cuidado centrado na pessoa? Já está ultrapassado. É o que diz a pesquisa científica dos últimos anos. Quem está realmente no centro da sua ILPI? Se você observar os planos de trabalho, os protocolos, as escalas, diria que é a pessoa com demência? Ou, na realidade, quem está no centro são os serviços?
Nos últimos 20 anos repetimos como um mantra “cuidado centrado na pessoa”. Mas a verdade é que, muitas vezes, isso foi apenas uma fórmula elegante para continuar fazendo exatamente o que já fazíamos antes, só que com palavras mais gentis. A verdadeira revolução hoje é outra: passar do cuidado centrado na pessoa para o cuidado guiado pela pessoa.
E para conseguir isso, é preciso ter a coragem de fazer uma pergunta nova:
“O que esta pessoa ainda consegue decidir, apesar da demência?”
E ainda:“Como posso me colocar ao seu lado, e não à sua frente?”
Se preferir ouça uma síntese aqui:
De protagonistas passivos a guias ativos
De acordo com o estudo Shared Decision-Making in Extended Care Settings (Daly, Bunn, Goodman), as pessoas com demência ainda podem participar das decisões que dizem respeito a elas. Mesmo quando a linguagem se enfraquece, valores, preferências, desejos e sinais continuam vivos.
📌 E, no entanto, nas ILPI ainda se decide demais por elas.
📌 Dão-se respostas sem sequer fazer a pergunta.
📌 Impõe-se a realidade da organização, sem escutar a do indivíduo.
É necessário um verdadeiro cambio de paradigma.
PCC e cuidado guiado pela pessoa: a diferença que muda tudo
O Cuidado Centrado na Pessoa (Personal Care Center – PCC) valoriza a pessoa, organiza-se em torno de suas necessidades, mas mantém a equipe no comando.
O Cuidado Guiado pela Pessoa pede à equipe que renuncie ao controle, que deixe espaço, que co-decida todos os dias junto com quem vive a fragilidade, mesmo quando a demência avança.
É uma questão de poder: no PCC, o poder está na mão do profissional que “se adapta”. No cuidado guiado pela pessoa, o poder é redistribuído.
Por isso, essa é a fronteira mais desafiadora (e necessária) da liderança em ILPI.
Como fazer, então? Três exercícios organizacionais
1️⃣ Pare de perguntar “o que você quer?” e comece a perguntar:
– “Em quais momentos você se sente à vontade?”
– “O que fez você se sentir bem hoje?”
– “O que te ajuda quando você se sente perdido?”
2️⃣ Treine a equipe para a observação lenta
Em vez de resolver imediatamente uma recusa, uma hostilidade, uma resistência, pergunte-se:
– “O que esta pessoa está tentando me comunicar?”
– “Que escolha podemos oferecer a ela neste momento?”
3️⃣ Formalize o envolvimento
Inclua nos planos de cuidado um espaço fixo:
“Quais decisões esta pessoa ainda consegue tomar?”
Faça disso um item nos briefings, um exercício nas entrevistas, um lembrete visível no corredor.
Casos Sente-Mente®: a autonomia que transforma o cuidado
Em uma ILPI do norte da Itália, formamos uma equipe para praticar a decisão compartilhada também com pessoas em estágios moderados de demência. Por meio de observações, simulações e briefings estruturados, ajudamos enfermeiros e cuidadores a reformular as perguntas do dia a dia.
📌 Não mais: “Vamos dar o banho agora?”
📌 Mas: “Quando o(a) senhor(a) prefere? De que forma é mais confortável para você?”
📌 E, se não puder responder com palavras, observamos os sinais.
Após seis meses:
– Redução de 38% nos comportamentos de resistência
– Aumento da satisfação da equipe (índice de clima +24%)
– Familiares relatam “mais confiança” e “menos conflitos”
Perguntas para a sua equipe de gestão
O que a pessoa com demência ainda decide hoje na nossa ILPI?
Quais espaços de decisão podemos abrir a partir de amanhã?
Temos coragem de ceder um pouco do nosso poder para devolvê-lo a quem nos pede dignidade?
Não basta estar no centro do cuidado. É preciso poder guiar a sua trajetória.
Toda vez que você decidir “no lugar de”, pare. Dê um passo atrás e pergunte-se:
“Como posso me deixar guiar?”
Porque, mesmo na neblina da demência, sempre permanece uma luz. Cabe a você acendê-la, não sufocá-la com as suas certezas.
Fontes:
Modelo Sente-Mente®, Manual de Cuidado de Pessoas com Demência em ILPI para uso interno das equipes Sente-Mente.
Daly R., Bunn F., Goodman C. Shared decision-making for people living with dementia in extended care settings: protocol for systematic review. BMJ Open 2016;6:e012955. doi:10.1136/bmjopen-2016-012955.
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Muito bom!











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